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Coragem e Gentileza (Série Essencial Invisible College)

Esta é uma série de textos escritos para o curso de Teologia Essencial do Invisible College. O curso consistiu no estudo de um tema da teologia por mês com leitura de um livro, materiais complementares em texto, áudio e vídeo, um fórum de perguntas e respostas com um convidado, uma sessão de tutoria com um dos professores em um grupo pequeno e a entrega de um texto (resenha ou artigo). O texto a seguir foi escrito em Maio de 2021 para o tema Apologética.



A vida no evangelho é repleta de paradoxos e supostas contradições: o maior é o menor; o líder é o que mais serve; os últimos serão os primeiros. Assim também, vemos como os personagens bíblicos têm suas vidas transformadas de modo drástico: aquele que era chamado de "filho do trovão" se torna o "apóstolo do amor"; o maior perseguidor dos cristãos se torna o maior apóstolo entre os gentios; o Todo Poderoso Deus se humilha ao se fazer humano e tomar sobre si o sofrimento e o pecado do mundo.

Da mesma forma, o caráter que é exigido do cristão contém antíteses e traços que podem parecer autoexcludentes, mas que na verdade visam o equilíbrio de uma vida santa diante de Deus. Assim, embora pareça improvável que a humildade e a ousadia, a misericórdia e a justiça, a gratidão por esta vida e o anseio pela eternidade habitem o mesmo corpo, a quantidade certeira de cada um desses atributos aperfeiçoará o tempero da vida do crente.

Não somos autorizados pelas Escrituras a viver contentes com o quase, mas encorajados a prosseguir buscando a santificação até alcançar uma vida integralmente perfeita em Cristo. Esse aspecto é fundamental no estudo e no exercício da apologética cristã. Em 1 Pedro 3:15-16, o versículo-chave para muitos apologetas e apologetas, vemos que todo o preparo começa pela santificação. Mais ainda, o apóstolo confirma que a santificação começa com a submissão a Cristo, para que, moldando o nosso caráter até ficarmos parecidos com Ele, alcancemos o sabor correto da vida equilibrada que, na defesa da fé, significa unir o conhecimento à humildade, a mansidão à prontidão, a coragem à gentileza.

No caminho da santificação, somos constantemente tentados a deixar que nossas preferências interfiram na construção do equilíbrio, porque gostamos de um sabor mais adocicado ou da ardência da pimenta. Isso nos leva a destacar no texto bíblico apenas os trechos que exaltam os nossos gostos, esquecendo, deixando de lado ou rejeitando o contraponto. Essa situação é especialmente frequente na apologética, que depende muito de discernimento espiritual e sabedoria bíblica para acertar a medida de coragem e gentileza sem que uma característica anule a outra.

Apologética com Coragem

O teólogo John Frame define a apologética como "a disciplina que ensina os cristãos a dar uma razão para a sua esperança" e distingue três aspectos desta disciplina a partir da sua instrumentalidade. A apologética como prova apresenta uma base racional para a fé; como defesa, responde às objeções de descrentes; e como ofensiva, ataca a estultícia do pensamento descrente. Estas perspectivas sugerem, de imediato, a necessidade de grande coragem e preparo para provar, defender e debater a fé. Não é por acaso que esta qualidade é muito enfatizada àqueles que se dedicam à apologética.

A coragem é muito bem representada na figura do apóstolo Pedro, na primeira parte do livro de Atos dos Apóstolos, com seus ousados discursos defendendo a ressurreição de Cristo diante do povo e das autoridades. A ideia de que um simples pescador da Galileia em poucos anos se habilite a enfrentar as maiores autoridades no meio do seu povo e desafiar as suas ordens é resumida em Atos 4:19-20: "Julgai vós se é justo, diante de Deus, ouvir-vos antes a vós do que a Deus; porque não podemos deixar de falar do que temos visto e ouvido." [ACF]

É incontestável que essa atitude ousada e corajosa será importante para o exercício apologético. A coragem se traduz em prontidão para responder a todo aquele que o demandar, no temor do Senhor para ser fiel em suas respostas, na ousadia para encarar os desafios no poder do Espírito Santo. A apologeta cristã deve se revestir de coragem para ser encontrada fiel diante dos homens e, principalmente, de Deus.

Toda essa coragem deve ser medida com cautela e humildade. O apologeta habilidoso não pode se perder em sua coragem e talento, chegando a pensar que o seu argumento tenha força para converter os corações, ou que a sua retórica seja suficiente para convencer o pecador. A coragem que se transforma em orgulho terá efeitos contrários à expectativa. O debatedor arrogante centra a discussão em si mesmo, e acaba perdendo o objetivo da apologética. A vontade de vencer a discussão é maior do que o amor pelo perdido. A ousadia e a intrepidez não podem ser confundidas com falta de sensibilidade ou de amor

Apologética com Gentileza

Porque "Deus não nos deu espírito de covardia, mas de poder", não podemos esquecer da continuação do versículo. O Espírito com o qual fomos ungidos desde o novo nascimento é de poder, amor e equilíbrio (ou moderação). No texto de 1 Pedro, o apóstolo adverte para que a apologética seja feita com mansidão e temor, ou seja, com espírito não contencioso.

A apologética cristã, diferente de outros debates, não busca dobrar o outro à sua crença, simplesmente pela razão do argumento. O apologeta cristão não pode desconsiderar o coração do outro, até mesmo para manter a sua conduta irrepreensível diante dos homens. O amor precisa ser o motivo e o veículo pelo qual a razão e a fé são apresentadas ao incrédulo. Sem amor, qualquer argumento seria como um sino retinente, insistente, e até irritante, mas nada eficaz.

Jesus Cristo chamou de bem-aventurados os mansos e os pacificadores. Ele mesmo deu o exemplo quando inquirido sobre a lei e o reino de Deus. Mesmo quando os seus arguentes eram mal-intencionados, a sua resposta era branda, honesta e sábia. O Mestre ensinou como fugir das armadilhas daqueles que não fazem perguntas honestas, sem oferecer munição para as suas maledicências. Mais do que isso, demonstrou como o apologeta que discerne as questões do coração pode enxergar além da pergunta falada, e oferecer a resposta para a dúvida que se calou.

Poderia haver algum mal uso desse ânimo gentil? De alguma forma, o amor poderia ser desvirtuado na conduta cristã? Sim, quando o amor é usado como desculpa para a fraqueza. O mundo usa as palavras corretas quando pede que sejamos mais tolerantes. Ocorre que tolerância não é amor. Amar é também exortar, chamar à disciplina e aplicar a justiça. O amor não cala a verdade, mas comunica com gentileza; não para humilhar, mas para edificar.

Não é possível que a cristandade, em nome do amor, permita-se assistir aos perdidos se afundando no lamaçal do pecado. A mansidão não é um estado inerte, que não incomoda, nem atrapalha. Os mansos também exortam, com palavras brandas, calmas e frequentemente mais eficazes do que o brado retumbante e furioso do pregador da praça.

Conclusão

O espírito de poder e amor é também o espírito de moderação, que nos auxilia a discernir as situações para ajustar as medidas de poder e de amor, de ousadia e mansidão, de coragem e gentileza. Nessa tarefa, nos tornamos mais sábios à medida em que nos submetemos ao Senhor. Quando as nossas preferências e estilos pessoais são colocados a serviço do Mestre, ele pode quebrar, moldar, aparar e até mesmo usar o que temos para a sua glória.

O exercício apologético não é mero debate, não busca o simples convencimento ou o silêncio do adversário. A apologética cristã precisa explicar a nossa esperança, e não apenas a nossa certeza. Para que o apologeta diminua, e o Evangelho apareça, a sua fala precisa ser sábia e equilibrada. “O sábio de coração é considerado prudente; quem fala com equilíbrio promove a instrução”. (Provérbios 16:21 NVI)

Manter uma posição equilibrada em uma sociedade que exige posicionamentos polarizados e extremos é o movimento no qual precisamos insistir. Neste momento, oramos a Deus para que nos revista de sabedoria e discernimento, de modo que as nossas palavras estejam bem temperadas, com coragem e gentileza.

Coragem para avançar, gentileza para alcançar.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FRAME, John M. Apologética para a glória de Deus. São Paulo: Cultura Cristã, 2010.

GEISLER, Normal L; TUREK, Frank. Não tenho fé suficiente para ser ateu. São Paulo: Vida, 2006.

MACARTHUR, John. O resgate do pensamento bíblico. São Paulo: Hagnos, 2018.

Livros lidos Janeiro 2020

Cumprindo a meta ousada de ler um livro por semana, começamos o ano muito bem. Foram cinco livros (talvez seis, se eu terminar uma leitura hoje) com temas bem diferentes.


A economia da justiça (Richard Posner) 

Comecei a ler ano passado depois de muito tempo sem nenhuma leitura técnica. Sabe a primeira vez que você conversa com um adulto sobre assuntos de adulto depois da licença maternidade? Demorei bastante pra pegar o ritmo da conversa, mas ao mesmo tempo me senti aliviada em colocar o cérebro pra funcionar.
O livro apresenta a teoria da justiça segundo a análise econômica do Direito, usando o critério da eficiência para justificar as decisões. Apresenta uma análise histórica sobre como esse critério foi utilizado desde as sociedades primitivas, e depois traz alguns casos jurisprudenciais mais recentes.
Talvez eu esteja fazendo uma leitura muito superficial do tema, mas durante a leitura do livro eu me peguei usando, automaticamente, o critério da eficiência algumas vezes, e nem sempre cheguei num resultado que eu \consideraria moralmente justo, porque o critério da eficiência desumaniza um bocado as relações em jogo. Pode ser muito útil em centenas de casos, mas existem muitos outros em que não dá pra discutir em termos de riqueza, os valores são muito mais elevados do que simplesmente dinheiro.
O livro é da coleção Biblioteca Jurídica WMF. Brochura simples, com folha branca e fonte serifada. É daqueles que não ficam abertos onde você deixou. Não tive problemas com a tradução nem com a revisão. Exceto pela qualidade do material gráfico, foi tudo muito bem produzido.

Viagem ao centro da terra (Julio Verne) 

Estou aumentando o meu repertório de leitura na ficção científica. Sempre gosto de ter algum livro de ficção para uma leitura mais leve, mas não foi bem esse o caso. Apesar de trazer uma história muito interessante, o estilo do livro não é tão narrativo. Se você se distrair, vai esquecer que é ficção.
O livro é a narrativa do sobrinho e assistente de um cientista alemão que descobre uma pista sobre uma passagem que leva ao centro da terra e resolve testar essa teoria indo pessoalmente em uma expedição.
A história narrada em primeira pessoa não poupa de detalhes científicos que, apesar de fictícios, são realistas e muito verossímeis, assim como algumas publicações de "artigos científicos". A ideia de um submundo pré-histórico (ou antidiluviano, na linguagem utilizada na época em que o livro foi escrito) parece tão interessante que eu estou pensando em adotar como o meu terrabolismo.
O livro é da coleção de Clássicos da Zahar. Edição ilustrada com capa dura, miolo em papel offwhite e fonte serifada. A ilustração de capa é linda, em laranja e azul bem contrastante. Um trabalho primoroso da Zahar, agora incorporada à Companhia das Letras, que continuará produzindo a coleção. 

Líderes que permanecem (Dave Kraft) 

A última leitura do ano do Clube do John, o nosso clube do livro, que eu não consegui nem começar a tempo do encontro (foi mal, galera), mas li nas férias.
Um livro curto e objetivo sobre a experiência de um pastor veterano que trabalha exclusivamente com mentoria de líderes cristãos.
O assunto é interessante, mas não tem muita novidade a ser dita sobre o tema. É uma boa leitura para relembrar algumas questões que vão se perdendo no dia a dia e despertar algumas mudanças, aquele reajuste que periodicamente precisamos fazer para voltar ao trilho da melhor conduta. O que me chamou a atenção na leitura é que o autor apresenta um monte de dados e estatísticas sem fonte nenhuma (ou, segundo o twitter, fonte: vozes na minha cabeça), aquele discurso bem tiozão que fala uma estatística aleatória que ouviu na rua para confirmar o seu discurso. Desnecessário.
Brochura simples da editora Vida Nova, com miolo em folha branca e fonte serifada em tamanho grande. Capítulos curtos e linguagem simples, narrativa em primeira pessoa.

As cinco linguagens do amor das crianças (Gary Chapman e Ross Campbell). 

Eu gosto muito do livro As cinco linguagens do amor, do Gary Chapman, que acabou se tornando uma "franquia literária", convidando "especialistas" para aplicar e traduzir as cinco linguagens do amor em contextos diversos do relacionamento romântico. Eu já tinha lido a versão para adolescentes e ultimamente tenho lido (e comprado) muitos livros no tema da infância. Tanto que dei um tempo com os três livros acima, mas já estava pronta para retomar ao assunto.
O livro fala sobre os relacionamentos entre pais e filhos e como demonstrar amor de modo que o seu filho se sinta amado. Chama a atenção para o fato de que a comunicação do amor precisa atender ao modo como o outro entende o amor, e não apenas ao modo como você acha que as pessoas devem ser amadas. As cinco linguagens do amor são apresentadas em capítulos separados, com exemplos práticos, de forma bem didática. Os capítulos finais aplicam o tema das linguagens do amor a situações específicas: disciplina, aprendizado, ira, maternidade/paternidade solo.
O que eu mais gostei desse livro é que traz muitos exemplos, muitas sugestões e ideias de como demonstrar amor. Você não precisa ficar refletindo "e agora, como vou aplicar isso na minha vida?" porque já tem um monte de ideias, não só as que o livro trouxe, mas outras derivadas dos exemplos do livro. O capítulo sobre a disciplina foi péssimo, e não digo isso somente por causa do meu ponto de vista sobre o assunto. Parece que os autores não concordam sobre o tema da disciplina, porque ficou bem contraditório. Algumas condutas são criticadas, e depois estimuladas, ou passam panos quentes sobre questões "disciplinares" que definitivamente não comunicam amor, mas que são utilizadas e muitas vezes incentivadas nas famílias conservadoras. Nesse intuito de não desagradar ninguém, o capítulo inteiro ficou uma porcaria sem sentido.
A edição em brochura simples da Mundo Cristão tem miolo em papel polen soft e fonte serifada. Com exceção dos trechos em que claramente não há consenso entre os autores do livro, a edição está bem feita e bem escrita. Pouco se nota sobre o que foi escrito por um ou por outro.

O rei das fraudes (John Grisham). 

John Grisham é praticamente a "literatura de banca" em versão jurídica. Não é bom, mas eu curto como entretenimento. No fim das férias, eu só queria isso.
O livro conta a história de um advogado meio loser que recebe de presente um caso de ação coletiva, dando uma guinada na carreira dele. O personagem passa a lidar com vários casos parecidos, ganha muito dinheiro, fica muito famoso, mas depois acaba sendo processado pelos próprios clientes e vai à falência.
Passei o livro todo torcendo pelo infeliz do Clay Carter, que parece estar tomando todas as melhores decisões na primeira metade, mas depois só faz besteira atrás de besteira. Você está vendo a decadência da pessoa ali na frente e já sabe como a história termina, mas mesmo assim torce pelo infeliz. O pano de fundo das ações coletivas é uma discussão jurídica séria e importante, mas acaba se perdendo em uma tradução ruim, a começar pelo título. "Fraude", na nossa tradição jurídica, está ligada ao estelionato, que não é nem de longe o que o personagem faz. Passei um tempo considerável confusa sobre o título até a ação coletiva entrar na jogada. Quem não está familiarizado com o termo tort talvez nunca entenda a referência.
As brochuras da Rocco são sempre ruins, especialmente essa de quase 400 páginas. A capa está soltando, bem típico dos livros dessa editora. O miolo é em folha branca simples e fonte serifada. Eu gosto da arte da capa e queria que eles continuassem a editar os livros do autor nesse padrão, mas parece que já voltaram ao padrão antigo (que é nenhum). A tradução me incomodou demais. É ruim mesmo. Quase todos os termos jurídicos estão mal traduzidos, e mesmo algumas expressões foram traduzidas literalmente, de modo que não fazem sentido nenhum em português. Ruim que chega a doer. Me lembrou as traduções que a gente fazia na adolescência, talvez até pior. Um péssimo trabalho. Parabéns aos envolvidos.

A pergunta que deveria calar

Todos conhecem as perguntas que aparecem toda vez que a sociedade acha que a sua vida não está seguindo o script. E as namoradinhas? Já terminou a faculdade? Quando é que vão casar? Já passou no concurso? E quando vão encomendar o bebê? Não vão querer mais um? Ainda não compraram uma casa? Quando vão trocar de carro?

"O Brasil quer saber"... muito embora não seja da conta de ninguém. Às vezes é uma pergunta inofensiva, às vezes só uma forma de puxar assunto, mas não existem formas menos invasivas de se jogar conversa fora? Quer dizer, podemos falar de tanta coisa - política, futebol, novela, música, comida, produtos de limpeza, cores de esmalte, até do clima... porque falar logo da intimidade do outro?


Dentre todas as perguntas, existe uma que é a mais cruel. Uma pergunta que nunca deveria ser feita, por ninguém. É a pior de todas, porque realmente não é da conta de ninguém... mais do que isso, é íntima demais pra que as pessoas achem que podem fazer disso um assunto para a conversa. Ninguém pergunta se você já fez sexo hoje, então porque perguntam por que você não tem filhos?

Todos os casais que não têm filhos têm uma razão para isso. Ainda que a razão seja tão simples quanto "ainda não pensamos nisso", "não queremos" ou "mas o casamento foi semana passada...". Existem outros motivos, alguns mais complexos, outros mais sensíveis... qualquer que seja o motivo, não há um cenário sequer em que a pergunta melhora as coisas de qualquer modo.

O casal não quer ter filhos. 
Talvez seja novidade para você, mas não há nenhuma lei que obrigue as pessoas a terem filhos. De fato, se existe algo totalmente ineficaz para convencer um casal a ter filhos, é a insistência das pessoas que não vão ajudar a fazer, criar, pagar as contas e acudir os choros da madrugada. Não é apenas um desperdício de energia, mas uma forma rápida de fazer com que o casal se afaste de você. Se você não é íntimo o bastante para conhecer e respeitar o desejo do casal, não tem intimidade suficiente para fazer essa pergunta.

O casal não quer ter filhos agora.
E não há nada que ninguém possa fazer a respeito. Ninguém sente vontade de engravidar porque os outros acham que agora é um bom momento. Não é assim que funciona. Ninguém manda no tempo dos outros, mesmo porque, ninguém conhece a vida de um casal tão bem assim pra achar que sabe quando é o melhor momento. Por outro lado, se a sua intenção for afastar um casal de amigos meio chato, essa pode ser uma boa tática. Com certeza eles passarão a te evitar se você ficar perguntando quando vêm os bebês.

O casal está tentando ter filhos.
Ninguém tem a obrigação de contar que está tentando engravidar. Mesmo porque ninguém mais precisa dessa informação. Essa tarefa é para ser cumprida na intimidade, e ninguém deve interferir. Parece até ridículo falar isso, mas muita gente - até mesmo, e principalmente, a família - começa a pedir contas quando sabe que o casal está tentando. A pressão já é grande quando ninguém sabe, e para quem pergunta, o risco de se colocar em uma situação realmente embaraçosa é muito grande.

O casal não está conseguindo ter filhos.
E você está lá, tocando na ferida, remexendo naquele pedacinho tão sensível da vida das pessoas que elas ainda nem conseguiram confidenciar. Mesmo que não seja nada demais, ainda que seja só por falta de sorte, ninguém quer falar sobre essa frustração quando perguntam "E aí, quando vem o bebê?".

O casal não pode ter filhos.
Pensa numa situação chata. É a saia justa em que ninguém quer se meter. "Vão ter filhos logo?" "Não, a gente não pode". Pra que passar vergonha à toa, perguntando sobre coisas que não te dizem respeito? É melhor ficar quieto.

E se não der certo...

Já faz algum tempo que divórcio não é mais um tabu. Se a nossa geração já conviveu com muitos pais divorciados, as próximas não parecem menos familiarizadas com essa configuração familiar. Os sociólogos falarão sobre a liquidez da vida moderna, sobre a nossa tendência a descartar mais do que apegar-se. 

Nesse contexto, o divórcio deixou de ser aquela ferramenta protegida por uma caixa selada com inscrições vermelhas que dizem "Em caso de perigo, quebre o vidro" e passou a ser uma espécie de seguro contra sinistros. Vamos casar e, se não der certo, a gente separa. Nesse momento começa a contagem regressiva para o divórcio.


Algumas coisas que fazem parte da nossa vida moderna não foram feitas para durar - usa, joga fora, compra outro - quanto tempo dura o seu celular? O novo é tão fácil, rápido e atraente que não consideramos consertar algo que estragou - quando foi a última vez que você foi na costureira, no sapateiro, no tintureiro?

Nossos avós tinham um arsenal de ferramentas, instrumentos e máquinas para consertar todo tipo de coisa dentro de casa, mas a nossa geração é quase inútil nessas competências. Somos mais bocós diante de um sistema elétrico do que nossos avós diante de uma tela touchscreen - pelo menos eles estão aprendendo.

Tenho notado no horizonte um "movimento dos reparadores", iniciativas como iFixit e Repair Cafe. Gente que não acha atentatório à dignidade sujar as mãos de graxa, que não tem medo de chave de fenda, que não precisa de ajuda pra fazer barra de calça e que encara o reparo como um estilo de vida. As razões são as melhores possíveis: salvar o planeta, economizar dinheiro, aprender novas habilidades...

Infelizmente não vejo o mesmo movimento de conservação de bens para conservar pessoas. Pelo contrário, cada vez mais inventamos manobras para facilitar o rompimento. A gente só namora que é pra não assumir muita responsabilidade... vai morar junto porque papel só serve pra dar trabalho na hora de desfazer... a gente casa porque, se não der certo, dá pra divorciar até no cartório.


A televisão mostra um casal completando décadas de casamento, e a pergunta que sempre fazem é: qual é o segredo?

Consertar relacionamentos dá muito mais trabalho do que consertar coisas. O investimento financeiro pode ser mínimo, mas o emocional é grande. Exige persistência, exige humildade, exige amor, exige abrir mão do controle, das alternativas. Casar é uma corrida de resistência, mas é em dupla, então a gente se diverte no caminho.

O casamento começa com "até que a morte nos separe", e não com "e se não der certo, divórcio". Não é um grande compromisso porque dura, ele dura porque é um grande compromisso. Eu me comprometi a trabalhar pela felicidade do outro pelo resto dos meus dias, até que a morte nos separe. É um compromisso diário de amar, mesmo quando eu não quero amar. Nessa mutualidade reside a felicidade conjugal.

Ambas as pessoas precisam estar alinhadas na convicção de que se não está dando certo, precisamos fazer dar certo, na certeza de que a responsabilidade pelo sucesso ou fracasso do relacionamento pertence aos dois, em igual medida. Encerrar um casamento porque não estava dando certo é desistir do outro. Incompatibilidade de gênios é a mentira que a gente conta para não dizer que cansou da convivência ou que não quer mudar para se relacionar melhor com as pessoas.

Aquele que não quer mudar, além de arrogante, é um solitário. Nenhum relacionamento em que você permanece o mesmo vale a pena. Os relacionamentos que merecem ser cultivados são aqueles que ensinam, que transformam, que moldam o nosso caráter e nos tornam pessoas melhores. Por esses vale a pena lutar. O segredo é não desistir.

Amar é uma escolha

Não faltam ditados para nos livrar da necessidade de explicar o que sentimos. Trabalhamos duro para separar razão e emoção, como se houvesse um interruptor que ativasse uma função, automaticamente desligando a outra. Separamos tanto, que escolhemos outro órgão do corpo, o coração, para lhe atribuir as escolhas mais insensatas, passionais e sem sentido.

Para discutir esse assunto, vamos começar deixando o romantismo de lado: o seu coração não tomou nenhuma decisão, todas as suas decisões são suas, tomadas por você, com o seu cérebro - lide com isso.


Vivemos num contexto que valoriza muito o passional e taxa a racionalidade como insensível, fria, cruel. Pessoas racionais são comparadas a máquinas, "robôs sem coração". Nessa dicotomia inútil, que julga ser possível separar o pensamento lógico das emoções, é importante saber o que significa passional e racional antes de lhes atribuir valores negativos ou positivos.

Quando falamos em emoção, passionalidade, "pensar com o coração", estamos falando de instintos. Não agimos com emoção, apenas reagimos. Ser completamente passional não significa ser uma pessoa boa, compassiva, amorosa, mas sim alguém incapaz de planejar, controlar os seus instintos, avaliar as circunstâncias ou mesmo agir de qualquer forma mais elaborada além do ciclo ação-reação.

O sistema límbico representa a parte mais primitiva do nosso cérebro. Essencial? Sem dúvidas. É a parte do cérebro que controla as emoções, a memória, onde guardamos os nossos hábitos e rotinas. É a parte que trabalha nos bastidores enquanto estamos ocupados prestando atenção em alguma coisa, é o que nos instiga a fugir e a lutar.

Quanto à racionalidade, nenhuma máquina é capaz de exercitá-la de modo tão complexo e genial como o ser humano. Ao raciocínio lógico devemos não apenas todas as comodidades da vida moderna, a nossa vida em sociedade, a organização das cidades, mas a nossa própria sobrevivência - ou você acha que os humanos teriam alguma chance de sobrevivência na selva sem o córtex pré-frontal?

De nada adianta ter o instinto de fugir e lutar se eu não sei se fico ou se corro. Saber controlar as emoções é tão importante quanto ter emoções. Tomar decisões, frear os instintos, prestar atenção no que você está fazendo. Controlar a agressividade, segurar o choro, providenciar a serenidade para dar a resposta certa quando a vontade é de sair correndo. Isso é o que o córtex pré-frontal faz por você.

Todo esse papo de neurociência para dizer uma coisa que você já sabia - o coração não toma, não tomou e nunca vai tomar decisões - e uma que você, talvez, precise aprender - você é responsável pelas suas decisões, até mesmo por aquelas que você pensa ser inteiramente passionais.

Você pode não ter escolhido se apaixonar, mas foi você quem escolheu nutrir a paixão - se não fosse assim, teríamos todos sérios problemas com a Fernanda Lima. Deixar a paixão morrer ou se envolver em um relacionamento? Essa é uma decisão que todos deveríamos ser capazes de tomar conscientemente.

O amor não nasce de uma reação química, não é um instinto, muito menos uma mágica no ar. Um relacionamento saudável - onde não há abusividade, simbiose, co-dependência... - não nasce de uma reação a um instinto, mas de uma decisão consciente. 

O relacionamento dura enquanto duas pessoas decidem, a cada dia, se amar. O relacionamento termina quando pelo menos uma dessas pessoas toma a decisão contrária. Sim, mesmo quando a relação termina com afetividade, respeito, amizade... o componente que faz toda a diferença entre fugir e lutar é o amor.

amar você, amar alguém, escolha o amor.
Não é fácil. Amar não é um piquenique. Quando se decide amar alguém, deve-se saber que não se trata de amar só nos dias bons ou quando o outro se comportar conforme as suas expectativas. Amar é resistir ao instinto de fugir e conscientemente ficar, é pensar em soluções, estratégias e ações para sair da crise, da fossa, do caos.

É preciso assumir as decisões que tomamos, mesmo aquelas que decidimos não tomar. Não foi o seu coração quem o colocou nessa roubada, foi você. Não existe saída mágica, existem escolhas. Nem sempre é fácil, muitas vezes dói, mas não há como escapar.

Amar é uma escolha.

Intimidade é para os íntimos

A facilidade em registrar qualquer evento que aconteça torna a exposição mais fácil. Câmera, GPS, gravador, tudo está no celular, que você carrega a todo lugar, ao alcance da mão em qualquer momento. Mas não basta registrar, é preciso publicar. Sem publicação, não há ostentação. Se ninguém sabe, não aconteceu.

Como será que as pessoas viviam antes da internet? Será que foi assim que surgiram os outdoors, pra mostrar às pessoas o que alguém comeu, aonde esteve, o que comprou, quantos quilômetros correu e qual foi a sua trajetória?


O excesso de informação torna a privacidade algo cada vez mais raro e os momentos da vida cada vez menos preciosos. Se você divide cada momento da sua vida com quinhentas (mil, duas mil, cinco mil...) pessoas, qual é a parte da sua vida que pertence apenas às pessoas com quem você tem um vínculo especial? O que há de especial nesse vínculo se cada momento que você passa com essas pessoas é compartilhado com o mundo todo?

Uma vila para uma criança

Havia outro texto programado para hoje, quando surgiu uma foto na minha linha do tempo. A foto mostrava a sala de espera de um aeroporto. Havia uma mulher sentada, mexendo no celular. Aos seus pés, sobre um lençol estendido no chão, um bebê dormindo. A foto veio acompanhada por uma legenda que criticava a atitude da mãe, preferindo segurar o celular a ter o filho nos braços, privando a criança do aconchego materno. Mas não foi isso o que chamou a minha atenção.

A mãe estava sozinha.


É claro que uma mãe é perfeitamente capaz de cuidar de um filho sozinha. Mas não deveria precisar ser mãe sozinha. Talvez ela tenha demorado duas horas embalando o filho até que ele caiu no sono e, precisando descansar, estendeu o lençol no chão para deitar a criança enquanto avisava a alguém "está tudo bem", ou simplesmente aproveitava os vinte minutos sem choro de criança para desopilar a cabeça. A criança estava no chão porque não tinha ninguém para segurar enquanto a mãe manda uma mensagem para alguém, come uma barrinha de cereal, toma um gole de água - movimentos que ela não arrisca com o filho no colo, sob o risco de acordá-lo.

Há um ditado em inglês que diz que é necessário uma vila inteira para criar uma criança (it takes a village to raise a child). Não é responsabilidade só da mãe, que o pariu, nem do pai que ajudou a fazer. Não é só a família extensa, mas toda uma comunidade de apoio que se faz necessária para criar uma criança. São os avós e tios, os amigos e vizinhos. Até mesmo os desconhecidos têm o seu papel de não atrapalhar, não julgar, não expressar o grande incômodo em sua vida por compartilhar o avião com uma criança que chora.

Não conheço nenhum ditado em português semelhante. Conheço o Quem pariu Mateus que o embale, que é a versão para mães de Ema, ema, ema, cada um com seu problema. Como se criança fosse "problema" só de pai e mãe. Como se cada criança fosse um alienígena que partirá para outro planeta, e não um ser humano que faz parte dessa comunidade e que precisa aprender a viver com autonomia e responsabilidade nesse ambiente social. Como se os bons e maus frutos fossem colhidos apenas pelos pais. Como se a criação de uma criança jamais afetasse uma comunidade.

Em vez de uma comunidade acolhedora, uma sociedade hipócrita, cheia de dedos para apontar para a mãe que estende um lençol no chão para o filho que dorme, mas que não denuncia a violência doméstica na casa vizinha porque é melhor não se intrometer. Quando eu olho para essa mulher sozinha no aeroporto, com o filho que dorme no chão, eu penso em quantas horas de voo ela terá pela frente, quantas horas de voo ela já teve que enfrentar, por quantas horas ela esteve com seu filho no colo até que finalmente estendeu um lençol no chão e alguém compartilhou esse momento nas redes sociais.

A pergunta aqui não é simplesmente: onde está essa mãe? ou, cadê o pai dessa criança? mas, Cadê a comunidade de apoio? Cadê a empatia das pessoas? Onde está a vila dessa criança?

O dinheiro e o casamento

Os assuntos que evitamos, aqueles dos quais não se fala em particular, muito menos em público, aqueles dos quais nós fugimos, são justamente esses pontos cruciais que colocam muitos casamentos em perigo. Sexo e dinheiro, então, são questões tão íntimas que é até falta de educação falar a respeito. 
Em vez de fugir do desagradável, vamos transformar o assunto desagradável em interessante enquanto falamos sobre dinheiro. (E se você ainda não leu, já começamos a falar sobre sexo aqui). Existem quatro princípios para que o dinheiro se torne uma fonte de qualidade de vida, e não de atrito, para o casal.

Que o equilíbrio esteja com você

O que diferencia os posers dos fãs de Star Wars é a sua opinião sobre a segunda trilogia Luke Skywalker. Fica a dica para você que quer passar por entendido: o cara é um mala. Um protagonista sem sal, mais atrapalha do que ajuda, imaturo, egoísta, bobo, cara de mamão... acho que deu pra perceber que eu não gosto dele, né?


Mas meu problema não é só contra o Andarilho das Estrelas. Na verdade eu não gosto dos jedis. Tenho sérios problemas com a ordem que se diz "do bem", mas tem uns princípios muito esquisitos. Muita gente se comporta como os jedis, parecem boas pessoas, parecem ser "do bem", enquanto contaminam o ambiente com ideias estranhas.

Não há emoção, há paz

Jedis não se envolvem emocionalmente. O código não se refere a emoções "ruins" como medo, raiva, inveja, mas a qualquer emoção, inclusive o amor, a compaixão, a misericórdia. A emoção, qualquer emoção, é considerada um veneno para os jedis, impede a clareza da mente, traz confusão, conflito. Logo, onde não há emoção, há paz. Mas essa não é uma paz verdadeira. Não é a paz que se atinge após a resolução dos conflitos, mas sim aquela paz frágil, existente quando fugimos do problema, das emoções. 

Viver sem envolvimento emocional é solitário, é desumano, é robótico. O agir desprovido de emoções, por mais nobre, útil e generoso, é vazio de sentido, é vão, é insosso. Fugir das emoções não é apenas cansativo, é uma auto-mutilação, é desprezar uma parte importante do que significa ser humano (ou seja lá a espécie dominante no seu planeta). Os jedis consideram essa mutilação um sacrifício, uma elevação, eu vejo uma deficiência.

Não há ignorância, há conhecimento

Os jedis tentam substituir as emoções pelo conhecimento. Colocam-se na posição do observador imparcial positivista, alguém alheio a toda a confusão, com habilidades intelectuais superiores, capaz de tomar as decisões apropriadas, pois não está contaminado com emoções.

Especialidade da casa: péssimas decisões
No entanto, falta aos jedis uma habilidade fundamental: a empatia. Não é possível ter empatia se não sentir. Sendo assim, qualquer decisão, por mais técnica, habilidosa, precisa, pode bater na trave da eficiência pela falta de sensibilidade, por desconsiderar as emoções envolvidas. Nenhum conhecimento técnico pode substituir a emoção, pois apenas com as emoções podemos sentir a dor do outro, calçar os sapatos do outro, compreender, de fato, seu pensar e agir.

Não há paixão, há serenidade

O que move os jedis é o senso de dever. É por isso que eles agem. Eles cumprem missões, realizam tarefas, obedecem ordens. Jedis não são movidos pela paixão, porque isso seria emocional, como se a emoção fosse uma fraqueza, uma rachadura na perfeição por onde pode entrar tudo o que é maléfico, infeccioso, contaminador. É um pensamento patológico, que nos torna menos humanos e mais robóticos, empalidecendo as cores da vida até restar nada mais que uma fria escala de cinzas...

Há quem diga que o código Jedi, com todas as suas restrições, não seja uma barreira à compaixão, pois os Jedis acreditam que todas as vidas são preciosas. No entanto, essa simples crença não se desenvolve à compaixão quando a paixão é negada. Não é possível sentir as paixões do outro se eu não posso sentir as minhas. Nós podemos dominar as emoções quando as exercitamos e as conhecemos, mas quando nos privamos dessas experiências, qualquer pequeno sentimento pode nos dominar.


Por isso o pobre do Anakin despirulitou a cachuleta. Tantos anos reprimindo as emoções, que quando ele começa a experimentar uma coisa boa, acabou sendo vencido por ela. Se os Jedis são seres reprimidos, os Siths são seres dominados. Quer dizer, parece que a Força não se dá muito bem com pessoas emocionalmente equilibradas.

Trabalho, tempo e filhos

Se tem uma coisa que me deixa morrendo de dó é a creche em período integral. Os pais se privam da convivência com os filhos para prover o seu sustento. A criança acaba passando um terço do seu dia em uma rotina pré-formatada, pouco individualizada. Porque a criança tanto tempo na instituição, a escola assumindo obrigações que são da família: "ajudando a criar". 

Criança não precisa de dinheiro, de coisas, de presentes, de festas de aniversário super produzidas. Criança precisa é de tempo. Precisa conviver com gente, criar vínculos com os pais, receber estímulos, ter experiências.


Infelizmente, esse modelo existe para responder a uma realidade que corresponde à maioria dos adultos brasileiros hoje. Nós nos acostumamos com esse formato de trabalho em que as pessoas saem de suas casas e passam oito horas do seu dia tra-ba-lhan-do, como se esse fosse o único modo de se viver. E é assim que a creche em período integral deixa de ser um absurdo e passa a ser a coisa mais óbvia do mundo. Os pais precisam trabalhar oito horas por dia. Logo, a criança precisa passar oito horas... onde? Na creche.

Precisa? Qual é o ganho de produtividade em suas oito horas de trabalho, imaginando um cenário alternativo em que você trabalhasse apenas seis horas? E você sabia que uma jornada de seis horas corridas corresponde a um período integral, do mesmo jeito que as oito horas com intervalo pro almoço?

Se quisermos ter tempo para ter filhos, precisamos buscar alternativas à jornada fixa de quarenta horas fora de casa. Trabalhar menos, trabalhar em casa, trabalhar em horários alternativos, trabalhar em horários flexíveis. Não estou cogitando não trabalhar porque essa não é uma realidade pra mim (te contar uma coisa: eu gosto de trabalhar), mas talvez seja uma opção viável pra você?

Mas é estranho. É difícil tirar a formatação de fábrica da cabeça das pessoas. Elas olham torto, e perguntam "por que SÓ seis horas?" como se isso o tornasse um vagabundo. Elas veem quem "não trabalha" como um parasita na sociedade, se aproveitando do trabalho alheio. Eu trabalho em home office há anos, e às vezes ainda é difícil para as pessoas entenderem que estar em casa não significa estar desocupada porque é aqui que eu trabalho.

Não é como se não houvesse escolha. Se nesse momento você se vê sem opções (sério? sério mesmo?), alguma escolha que você fez lá atrás o colocou nessa posição. Ou talvez você apenas não está enxergando direito. OU você decidiu que algumas coisas são mais importantes e isso, minha gente, também é uma escolha.

Se eu trabalho três turnos para manter um padrão de vida que eu considero ideal porque a minha profissão não tem uma remuneração muito bacana, posso dizer que não há escolhas aqui? Quem escolhe a carreira, quem determina o padrão de vida, quem decide que é melhor trabalhar manhã, tarde e noite do que viver em um padrão inferior?

Atualmente nós (marido e eu) trabalhamos, entre o trabalho de hoje e a construção de projetos para médio e longo prazo, de oito a doze horas por dia cada um, frequentemente em fins de semana e feriados. Não temos filhos e queremos ter tempo para os filhos que queremos ter.

Escolhemos investir nosso tempo hoje, para colher amanhã. Nosso objetivo é conseguir trabalhar entre quatro e seis horas diárias cada um. Sim, cada um, em horários alternativos, porque criança merece ter tempo de qualidade com pai e mãe, da mesma forma que pais e mães têm idêntico direito a desfrutar da convivência com os filhos e de ser um casal. Não existe piloto e co-piloto nesse trabalho, somos corresponsáveis pelo lar.

Eu abro mão de um padrão de vida luxuoso, abro mão de responder imediatamente aos instintos maternos, abro mão de estabilidade e carteira assinada em nome de algo que pra mim vale muito mais: qualidade de vida em família.

Recomendo #3

Apenas muito amor pelos últimos posts do blog ❤ Não é maravilhoso conversar sobre aquilo que dá prazer? 

Começamos a terceira temporada (oi?) falando sobre a oitava maravilha do mundo, ou seja, sexo. Foi o pontapé inicial do assunto que será o tema das nossas segundas-feiras: relacionamentos, família, casamento e...sexo. Também falamos sobre o que fazer enquanto as séries estão em hiato e eu dei a minha dica para manter a bolsa organizada e não esquecer nada quando trocar de bolsa.
  • O texto sobre sexo nasceu de uma conversa com amigas casadas sobre como elas se sentem com relação ao ato sexual, que me deixou refletindo seriamente até a epifania dessa moça, que percebeu que não é obrigada a fazer sexo. 
  • Claro que ninguém é obrigado, mas nunca sentir prazer também é um sinal de alerta. Por que homens e mulheres enxergam o sexo de forma tão diferente? O que precisamos mudar nas próximas gerações?
  • A falta de libido também tem chamado a atenção de muitas mulheres para os perigos dos anticoncepcionais. Eu ainda não aderi ao movimento (não me sinto tão prejudicada pelo uso, o medo de engravidar nesse exato momento é maior), mas dou o maior apoio a quem está pensando no assunto!

  • Se você ainda está pensando qual série vai maratonar nesse hiato, o Papo de Homem fez uma lista com quarenta QUARENTA séries que já terminaram. Não vai ser por falta de opção, né?
  • Você já deve conhecer, mas vai que não? O Banco de Séries e o Episode Calendar são ótimas ferramentas para organizar as séries que você está assistindo. Eu uso os dois ao mesmo tempo simplesmente porque não consigo escolher entre o layout do EC e as funcionalidades do BdS. (Se você não tiver frescura com layout, corre pro BdS sem medo).
  • Que tal aproveitar o tempo livre para aprender alguma coisa? Eu recomendo o Duolingo para quem quer estudar idiomas. O Khan Academy é uma ferramenta maravilhosa para estudar matemática, para crianças e adultos. A Cíntia do Insignificativo fez um post sobre três sites que ela tem usado para aprender todo tipo de coisa na internet. 

No domingo dos namorados, falamos sobre cristianismo e namoro, ou seja, sobre namoro cristão. Um Deus que se importa com a sua felicidade não poderia negligenciar uma área tão impactante da sua vida. A treta da vez foi sobre o racismo e como dificultamos os problemas que não queremos resolver. Fechamos a semana falando sobre como passar o inverno sem passar frio nem vergonha e encerramos com a melhor seleção de links sobre os temas mais bacanas das últimas semanas #autoestima.
  • Essas cientistas políticas fizeram algumas pesquisas para averiguar dizeres do senso comum sobre as eleições. Por exemplo, será que a maioria dos parlamentares são brancos porque o eleitor é racista? Ou os corruptos estão no poder porque o eleitor é ignorante? Vale a pena ler as conclusões das pesquisadoras.
  • Um livro bacana para equilibrar opiniões sobre ideias extremas (alguém mais já cansou da palavra polarização) é O Caminho do Meio, de Lou Marinoff.
  • Ela não é Luiza, mas mora no Canadá e ensina como faz pra enfrentar o frio de lá, usando alguns princípios que já abordamos aqui. 
E você, tem algum link pra compartilhar sobre esses assuntos? Já escreveu alguma coisa nesses temas? Conhece um site super bacana, um vídeo ótimo, uma dica infalível? O que você recomenda? 

Existe seguro para coração partido?

É muito difícil ser jovem, cristão e solteiro. Por um lado, existe uma régua moral muito severa - e às vezes não muito clara - gritando que isso é certo, aquilo é errado, e volta e meia se contradizendo. Por outro lado, um mundo cheio de novidades e oportunidades, muitas das quais parecem excelentes, mas nenhuma delas totalmente esclarecida até que você de fato experimente. O equilíbrio entre o que a igreja diz e entre o que o mundo diz é o que a Bíblia diz, mas nem todos conseguem encontrar ali as respostas que procuram.


Não existe namoro na Bíblia. A Bíblia não fala de namoro, assim como não fala de televisão ou de escovar os dentes. Todas essas coisas são costumes modernos ocidentais. Até hoje, em muitas partes do mundo, essas coisas não fazem parte do cotidiano, como não faziam parte do cotidiano das pessoas nos tempos bíblicos. Mas isso não significa que a Bíblia não tenha nada a dizer sobre namoro, televisão ou escovar os dentes. Para todas as situações da vida existem princípios bíblicos.

A Bíblia não menciona a palavra namoro, mas fala sobre relacionamentos, amor, casamento, sexo, amigos... e sobre todas essas coisas existem princípios que podemos aplicar a essa situação daqueles que são mais que amigos, mas ainda não deram um passo definitivo no compromisso conjugal.

Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida. Provérbios 4:23

O que é o namoro? É uma relação de afeto entre duas pessoas que se comprometem socialmente uma à outra, sem estabelecer um vínculo conjugal. Por ser uma relação de afeto, torna os namorados vulneráveis um ao outro. Quando você abre os portões do seu coração para o amor, abre também para o sofrimento.

Sofremos pela idealização não concretizada do outro. Há um choque de culturas e valores, em maior ou menor grau. Algumas coisas que são importantes para você não são tão importantes para o outro. Há dificuldades na comunicação. Aquela mensagem que você achou que estava clara, cristalina e óbvia não foi sequer captada pela outra pessoa. Sofremos para aprender como o outro pensa, o que ele valoriza, o que ele espera. Sofremos nas despedidas e saudades.

Não falo isso para dizer que namorar é horrível, não é. Mas o lado bonitinho todo mundo sabe. No entanto, o namoro não é algo leviano. O relacionamento deve ser levado a sério e pensado com carinho antes mesmo de se começar. É preciso pensar se você está disposto a deixar o seu coração vulnerável a alguém, e o motivo porque você vai fazer isso. Se for só para curtir, para viver o momento, para deixar rolar, talvez não valha a pena o investimento emocional.

A mesma fonte de onde brota o amor e o sofrimento faz nascer a alegria e a vontade de viver. Proteja o seu coração dos sofrimentos inúteis. Invista em relações que trazem felicidade e que têm potencial para serem duradouras, ou seja, relacionamentos em que você visualiza uma parceria para a vida pelas próximas décadas. Não deixe que pessoas erradas no momento errado roubem a sua alegria. Guarde o seu coração.