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Uma vila para uma criança

Havia outro texto programado para hoje, quando surgiu uma foto na minha linha do tempo. A foto mostrava a sala de espera de um aeroporto. Havia uma mulher sentada, mexendo no celular. Aos seus pés, sobre um lençol estendido no chão, um bebê dormindo. A foto veio acompanhada por uma legenda que criticava a atitude da mãe, preferindo segurar o celular a ter o filho nos braços, privando a criança do aconchego materno. Mas não foi isso o que chamou a minha atenção.

A mãe estava sozinha.


É claro que uma mãe é perfeitamente capaz de cuidar de um filho sozinha. Mas não deveria precisar ser mãe sozinha. Talvez ela tenha demorado duas horas embalando o filho até que ele caiu no sono e, precisando descansar, estendeu o lençol no chão para deitar a criança enquanto avisava a alguém "está tudo bem", ou simplesmente aproveitava os vinte minutos sem choro de criança para desopilar a cabeça. A criança estava no chão porque não tinha ninguém para segurar enquanto a mãe manda uma mensagem para alguém, come uma barrinha de cereal, toma um gole de água - movimentos que ela não arrisca com o filho no colo, sob o risco de acordá-lo.

Há um ditado em inglês que diz que é necessário uma vila inteira para criar uma criança (it takes a village to raise a child). Não é responsabilidade só da mãe, que o pariu, nem do pai que ajudou a fazer. Não é só a família extensa, mas toda uma comunidade de apoio que se faz necessária para criar uma criança. São os avós e tios, os amigos e vizinhos. Até mesmo os desconhecidos têm o seu papel de não atrapalhar, não julgar, não expressar o grande incômodo em sua vida por compartilhar o avião com uma criança que chora.

Não conheço nenhum ditado em português semelhante. Conheço o Quem pariu Mateus que o embale, que é a versão para mães de Ema, ema, ema, cada um com seu problema. Como se criança fosse "problema" só de pai e mãe. Como se cada criança fosse um alienígena que partirá para outro planeta, e não um ser humano que faz parte dessa comunidade e que precisa aprender a viver com autonomia e responsabilidade nesse ambiente social. Como se os bons e maus frutos fossem colhidos apenas pelos pais. Como se a criação de uma criança jamais afetasse uma comunidade.

Em vez de uma comunidade acolhedora, uma sociedade hipócrita, cheia de dedos para apontar para a mãe que estende um lençol no chão para o filho que dorme, mas que não denuncia a violência doméstica na casa vizinha porque é melhor não se intrometer. Quando eu olho para essa mulher sozinha no aeroporto, com o filho que dorme no chão, eu penso em quantas horas de voo ela terá pela frente, quantas horas de voo ela já teve que enfrentar, por quantas horas ela esteve com seu filho no colo até que finalmente estendeu um lençol no chão e alguém compartilhou esse momento nas redes sociais.

A pergunta aqui não é simplesmente: onde está essa mãe? ou, cadê o pai dessa criança? mas, Cadê a comunidade de apoio? Cadê a empatia das pessoas? Onde está a vila dessa criança?

Cabelo bagunçado

Talvez tenha começado nos anos 2000. Aquela moda em que o ideal de beleza era a Alanis Morrisette, com seu cabelo de espaguete escorrido. Até quem tinha cabelo liso, alisava o cabelo para ficar mais chapado, sem volume, grudado na cabeça. Foi uma época muito difícil para ser cacheada e amar o próprio cabelo (e, consequentemente, a própria imagem no espelho).

O cabelo tem que obedecer. O cabelo não pode sair do lugar. O cabelo não pode ficar armado. Olha como esse cabelo não para no lugar. Esse cabelo não segura o penteado. Esse cabelo não abaixa! Esse cabelo é terrível!

Seu cabelo não segue o padrão, seu cabelo não obedece às normas, seu cabelo é difícil! Logo você aprende que bonito é o cabelo comportado, cabelo que não arma, cabelo liso, e que o seu cabelo é, sim, cabelo ruim.


A neura do cabelo perfeito conduziu muitas cacheadas às químicas pesadas. Tem gente que vive feliz com o resultado até hoje e encontrou a textura da sua vida. A maioria, no entanto, carregou arrependimentos, decisões difíceis de reverter, transições longas, algumas até sofreram problemas de saúde por causa dos produtos químicos utilizados. Mas o dano maior fica na autoestima: quando você acha que você precisa ser algo diferente para ser belo, aceito, agradável, alguma coisa lá dentro diz que ser apenas você não serve.

Até a gente aprender que volume é bonito, que cacho não tem lugar pra ficar, que tem que ficar é por lá tudo mesmo, que as diferenças de texturas são maravilhosas, enfim, até a gente aprender a encontrar a beleza que já estava lá desde o princípio... levou um tempinho pra gente se amar de verdade, né?

Mas essa neura não aflige apenas as cacheadas. Padrões de beleza atingem as mulheres, não importa qual é a textura do cabelo. Cabelo liso também armado, embaraçado, também tem os seus dias de revolta. E o que você vai fazer? Não vai sair de casa? Ou vai passar o dia de mau humor e botar a culpa no bad hair day?

Eu só quero te dizer que, enquanto você vê no seu cabelo bagunçado um problema, tem gente que transforma isso em estilo. É, pois é, enquanto você se irrita tentando fazer com que o cabelo fique do jeito que você quer, tem gente bancando a fina fazendo carão com o cabelo amassado, como se isso não importasse. Porque não importa.


A diferença entre um coque bagunçado e um cabelo desgrenhado está na confiança de quem sai de casa sabendo que isso não importa. Seu dia não vai ser ruim porque não deu tempo de lavar o cabelo. Você não vai deixar que uma coisa tão insignificante afete o seu humor. Não vai deixar de estar com as pessoas que ama e viver momentos bacanas porque não vai dar tempo de ficar linda. Linda você já é. 

Agora faz cara de celebridade e vai.

Espírito Olímpico & Meritocracia

Rebeca Andrade vivia em Guarulhos com a mãe, empregada doméstica, e seus sete irmãos. Muitas vezes não tinha dinheiro para pagar a passagem para os treinos. Mesmo com todas as dificuldades, destacou-se pelo seu talento e esforço. Aos 13 anos, ganhou o Troféu Brasil de Ginástica Artística. Em destaque, passou a treinar no Rio de Janeiro, longe da família, mas com muita dedicação. Integrando a seleção brasileira, foi a melhor ginasta da equipe olímpica do Brasil. Ela ainda não ganhou nenhuma medalha, mas conquistou muita gente com seu lindo solo ao som de Beyoncé.

Yusra Mardini jogou pelo Time dos Refugiados. Ela ficou conhecida pelo que fez antes das Olimpíadas: nadou por mais de três horas, junto com três outras pessoas, puxando, em mar aberto, o barco em que estava com outras vinte pessoas e que começou a afundar meia hora depois da partida. Nas Olimpíadas, ficou entre as últimas na sua categoria. Na memória das pessoas, uma das primeiras a surgir quando se fala de natação.

Sarah Menezes entrou para a história ao ser a primeira judoca brasileira a conquistar uma medalha de ouro em Jogos Olímpicos. Conheceu o esporte aos nove anos, e por muito tempo sua rotina consistia conciliar dois treinos diários com as aulas e o tempo para fazer os deveres escolares. No Rio, deixou a competição nas quartas de final com uma lesão. Chorou largada no tatame, e nós choramos junto. No entanto, circunstância nenhuma no presente e no futuro seria capaz de mudar o fato de que, no ano de 2012, ela foi a melhor judoca do mundo em sua categoria.


O que rege as histórias dessas mulheres e de qualquer atleta é a meritocracia. Elas não chegaram a lugar algum porque pagaram o ingresso ou a mensalidade, nem por serem filhas, netas ou amigas de alguém. Seus feitos não se baseiam em heranças, privilégios ou cotas. Toda a sorte e talento do mundo não são suficientes para produzir resultados vencedores se não houver um compromisso pessoal. Elas venceram com suor e lágrimas, porque essa é a única forma de vencer.

Atletas que fizeram um compromisso com a vitória. Treinando duas vezes por dia, abrindo mão da sobremesa, esquecendo o que significa preguiça, decisões reafirmadas e levadas a sério ano após ano para obter o mérito. É a meritocracia que permite que a menina da favela se torne médica. Se o sobrenome, a conta bancária, o lugar onde ela mora ou a cor da sua pele fossem critérios, ela não conseguiria.

Superação, inspiração, excelência, determinação, coragem, esperança, fé, trabalho árduo. São valores necessários aos Jogos Olímpicos, são valores importantes para o brasileiro, são valores essenciais para a meritocracia.

Sim, é muito mais fácil e simples se dedicar a um esporte, uma arte, uma startup quado o arroz e feijão da família estão garantidos e não há boletos pra pagar. A questão aqui não é essa. Não se trata de comparar quem tem privilégios com quem não tem, mas de refletir sobre a possibilidade, ainda que difícil, de mudar o rumo da sua vida, em comparação a um momento (no tempo ou no espaço) em que isso seria absolutamente impensável.

Há quem critique a meritocracia porque o mérito parece estar mais distante de uns do que de outros, ou porque para uns é mais difícil do que para outros. É verdade, nem todos têm a mesma facilidade. Somos pessoas diferentes. Há quem tenha os melhores professores à sua disposição, há quem tenha crescido com o corpo ideal para desenvolver uma habilidade. No entanto, nenhum dos dois chegará a lugar algum se não houver compromisso e dedicação pessoal. Os melhores professores são inúteis para o aluno que não estuda. O melhor corpo que não é exercitado constantemente não se desenvolve e atrofia.

É claro que é mais difícil para quem precisa trabalhar oito horas por dia para sustentar o sonho ou para quem tem que escolher entre comer e pagar a passagem de ônibus. Mas difícil não quer dizer impossível. Em outras eras, seria impossível ao filho de artesão se tornar fidalgo, ao escravo se tornar doutor, ao plebeu se tornar rei. O conhecimento não mais está restrito às mãos e mentes dos mestres, nem o seu acesso disponível apenas àqueles que podem pagar. Pode ser difícil, como tudo o que vale a pena nessa vida. Não é impossível porque só depende de você. 

She's Beautiful, No Matter Her Mood

Na semana passada eu assisti a esse documentário She's Beautiful When She's Angry na Netflix, enquanto limpava a cozinha. Não temos empregada, então as pessoas que limpam são as pessoas que moram aqui. Eu gosto de assistir filmes e séries enquanto faço a limpeza, o marido gosta de ouvir palestras no youtube. Cada um com seu hobby...


Enfim, estava assistindo esse documentário tentando - e não conseguindo - ser convencida, comovida ou impelida a me engajar na luta feminista. Dando uma chance, sabe. Eu sempre dou chances para a argumentação, afinal de contas, como diz um amigo meu, eu sei que estou errada em várias coisas, eu só não sei quais. É por isso que leio, ouço, assisto e inicio discussões como essa. A gente precisa conhecer ideias diferentes para realmente pensar.

Eu tinha essa ideia de que o feminismo de hoje - opressor, irracional, repleto de ódio - não passava de uma aberração mutante do feminismo do outro século, que conquistou direitos para as mulheres, como o direito de votar, de estudar e de poder escolher uma profissão e seguir uma carreira. Respeito e admiro muito as pessoas - mulheres e homens - responsáveis por essas conquistas. No entanto, fiquei decepcionada - e bastante chocada - ao notar que o feminismo de ontem foi tão fanático, absurdo e sem noção quanto o de hoje.


Estamos lutando pelas mesmas coisas

As lutas de cinquenta anos atrás são as mesmas de hoje. Isso significa que avançamos muito pouco. Os padrões de beleza e a necessidade de buscar sempre a conformidade a esse padrão. A divisão das tarefas domésticas e a necessidade de que os pais sejam pais e não meros figurantes. O medo, o pavor de engravidar, porque isso vai arruinar completamente a sua vida. Se você fosse estuprada, as pessoas não acreditariam em você, e ainda teria que passar vergonha na delegacia, colocariam a culpa na sua roupa, no seu modo de andar, no que você estava fazendo a essa hora da noite. Se você apanhar em casa, você não vai fazer nada, porque não tem para onde ir, nem alguém que a socorra.

Estes foram os temas que abriram o documentário. Esses eram os assuntos que, felizmente e já não era sem tempo, trazidos à tona naquele momento. O problema é: isso era há cinquenta anos e ainda é hoje. Ainda precisamos nos lembrar da nossa própria beleza, ainda precisamos comprar algumas brigas para que o homem participe da vida doméstica. Ainda precisamos ser a pessoa que se preocupa com contracepção e que exige o uso da camisinha, porque ainda temos as mesmas opções se acaso uma gravidez surgir no caminho. Ainda somos abusadas de todas as formas e ainda desacreditadas e culpabilizadas.
O pai no trabalho, a mãe no protesto, a criança na creche: mais uma geração contaminada pelo machismo

Escolhendo as lutas erradas

Mas podemos falar sobre isso. Ótimo. No entanto, em cinquenta anos de lutas, seria apenas razoável exigir algo mais do que apenas a oportunidade de falar até o primeiro homem nos interromper, a primeira criança chorar ou o arroz começar a queimar. Isso porque o feminismo, desde cinquenta anos atrás, escolheu lutar as lutas erradas, atacando as pessoas e as instituições da sociedade, em vez de focar na cultura que permeia a todas elas e que as torna malignas. Não são as pessoas, nem os homens, nem o casamento, nem a maternidade os vilões dessa história: é o machismo.

No documentário, uma das mulheres relata sobre o momento em que decidiram queimar seus diplomas. Elas eram formadas em diversas áreas - história, arte, literatura - mas se deram conta de que, mesmo com a sua formação, não sabiam nada sobre a história das mulheres, e que os seus conhecimentos sobre mulheres na arte e na literatura eram parcos. Portanto, decidiram queimar seus diplomas. Um gesto simbólico que diz o quanto a causa não faz sentido algum. 

A solução que elas encontraram não trouxe nenhuma aprendizagem sobre qualquer área do conhecimento relacionada à mulher, não ajudou nenhuma outra mulher a obter esse conhecimento, de fato, não teve nenhum resultado prático senão fazer com que aquelas mulheres perdessem os seus diplomas - diplomas que conquistaram com toda a dignidade possível. Jogaram no lixo, isto é, no fogo.

E se elas usassem seus diplomas para promover a pesquisa sobre as mulheres? Que tal partir do seu ponto de desconhecimento para o ponto em que se conhece algo, e então repassar aos demais? Não seria melhor tirar os diplomas das chamas, e fazer com eles algo para ajudar as outras mulheres? Eu espero que a faculdade emita uma segunda via...
Tirando o foco aqui porque os meus direitos são mais importantes, desculpa.


Lutando contra nós mesmas

O documento mostra conflitos no movimento feminista. Porque as mulheres são diferentes umas das outras, embora muitas lutas sejam comuns a todas, cada grupo de mulheres tem uma agenda específica. Quando cada um desses grupos resolveu que estava na hora de chamar a atenção do mundo para a sua agenda - lésbicas, mães, negras, hispânicas, universitárias... - a luta de todas contra o machismo se enfraqueceu.

Mantemos essa irracionalidade ainda hoje. Luta-se pelo feminismo, em vez de lutar contra o machismo. Pelas causas de cada uma das minorias, em vez de unir forças contra o megazord que estraga a vida de todo mundo - não apenas, mas principalmente as mulheres. E eu não digo que essas questões não devem ser abordadas ou que elas não sejam importantes, porque são. No entanto, hoje nós precisamos de foco, mais do que nunca.

Se em cinquenta anos de lutas não fizemos muito para acabar com o machismo - francamente, isso são duas gerações, quer dizer, nem em nossas casas nós conseguimos transformar a realidade? - foi porque não tivemos foco. A luta das mulheres todo esse tempo não foi contra o machismo, não atacamos a cultura, não acabamos com a compreensão de que as mulheres ocupam um lugar inferior no mundo.

Eu vou ficar zangada, sim, quando eu precisar da raiva para resolver alguma coisa. Mas nem sempre eu preciso. Eu consigo convencer as pessoas sobre a razão e ainda ser gentil. Eu consigo ser gentil e ainda assim ser assertiva. Eu não preciso fazer loucuras para ser levada a sério. Eu me responsabilizo para que as gerações depois de mim não sejam contaminadas com o machismo. Porque eu sou linda, com qualquer humor, com qualquer sorriso.

A gaveta da bolsa

Não tem coisa mais irritante do que trocar de bolsa e perceber tarde demais que esqueceu alguma coisa na bolsa que ficou em casa. Para evitar esse problema, muita gente opta por não trocar de bolsa nunca, e de preferência nunca tirar nada de lá... vai que precisa? Por outro lado, com essa mania de nunca tirar nada da bolsa, às vezes ela fica tão cheia que não dá pra encontrar nada ali. De que adianta, então, ter de tudo?


Depois de uma lesão no ombro causada por essa mania besta de levar o mundo inteiro na bolsa, aprendi a usar a gaveta da bolsa. É um hábito que exige um pouco de planejamento e organização no início, mas que pode, literalmente, tirar um peso dos seus ombros e manter a sua bolsa sempre organizada e livre de coisas inúteis.

A ideia é que a bolsa seja guardada sempre vazia. Assim, você pode ter mais de uma bolsa e escolher qualquer uma delas antes de sair. Isso também faz com que as bolsas durem mais. Se você comprava uma bolsa por ano, porque usa sempre a mesma e depois de um ano a bichinha tá toda arrebentada, agora você pode continuar comprando uma por ano mas manter a mesma bolsa por três, quatro, cinco anos... É como sapato - se você usa sempre o mesmo, ele estraga mais rápido.

Como a bolsa vai ficar vazia, todas aquelas coisas que antes moravam ali (carteira, band-aid, creme de mão, canetas...) vão encontrar casa nova na gaveta da bolsa. No final do dia, ao chegar em casa, eu retiro as coisas da bolsa e guardo na gaveta. Sobram as coisas que não são da bolsa, mas têm lugar certo (contas pagas, batom, celular...) e o lixo (papel de bala, comprovante de pagamento, folder...) que vai direto pra lixeira.
Óculos escuros, duas carteiras, chave, álcool em gel, desodorante, canetas, band-aid, protetor labial, fones de ouvido, amêndoas, canetas, marca-páginas, celular e leitor de cartão
No dia seguinte, tendo em mente a minha agenda e o que vou precisar, escolho uma bolsa e retiro da gaveta aquilo que pode me ser útil hoje. No início esse momento era mais complicado, mas hoje em dia eu já faço esse processo sem pensar, não é mais algo que toma mais tempo do que calçar os sapatos, por exemplo.

De vez em quando - aqui a cada seis meses, mas pode ser que você tenha mais ou menos necessidade - acontece uma organização na gaveta. Verifico se aquilo que está na gaveta ainda é útil, se tem alguma coisa vencida, se tem algo que agora eu só uso em casa. As coisas úteis permanecem na gaveta. As coisas vencidas ou que não uso mais vão para a lixeira ou doação. Aquilo que nunca mais foi para a bolsa, mas que eu ainda uso, encontra novo lar em algum outro lugar da casa, que faça sentido para mim.

Lembre-se que organização tem tudo a ver com fazer sentido na sua vida. A gaveta da bolsa funciona para mim. Gostou da ideia? Como você se organiza com sua bolsa? Funciona para você ou está precisando mudar esse sistema?

O casamento, o sexo e as mulheres

Com o tema do estupro de volta à tona (já perceberam como de vez em quando ele emerge à superfície, gerando uma comoção geral, para depois retornar às estatísticas que ninguém lê?), veio o tema do estupro dentro do casamento.

Eu não vou sequer entrar no mérito de que o corpo do marido pertence à mulher e vice-versa. Também não quero discutir se é estupro ou não quando a pessoa não está a fim, mas acaba consentindo.

O que eu quero discutir é o triste fato de que muitas mulheres casadas nunca fizeram sexo por tesão e o quão triste isso é, especialmente porque para muitas essa situação constitui a normalidade. A completa satisfação no casamento encontra barreiras em quatro erros transmitidos de geração em geração.


Encarar o sexo como uma obrigação inevitável

Variando entre a imposição "cumprir o seu dever de esposa" e a ameaça "senão ele vai procurar lá fora", muitas vezes até inconsciente. Quem não conhece uma história "dei pra ele não terminar comigo" ou "pra ele não pensar que eu sou frígida/travada/retrógrada". Obrigou-se a participar de uma relação que deveria ser livre, desembaraçada.
Falando de sexo com Mrs. Kim.
É comum que atividades obrigatórias sejam menos interessantes. A atitude com relação à tarefa obrigatória é negativa. Aquele livro chato que você leu na escola, mas que em uma releitura descobriu que na verdade não era tão chato assim. Fazer algo porque tem que fazer, e não porque quer fazer, já dá um desgosto antes mesmo de começar a tarefa.

Achar que o sexo é para satisfação masculina

Isso não é orgasmo.
Mulher que nunca teve um orgasmo. Mulher que não sabe se já teve (não teve - quem teve, sabe). Mulher que acha que o sexo é só essa sensação interessante, quente, ou até um pouco incômoda com a qual ela já se acostumou. Porque o sexo é aquela atividade que começa quando o homem tem vontade e termina quando ele goza. Bom, não ter que ser. A atividade sexual é muito mais prazerosa quando cada um está fazendo o seu melhor para satisfazer o outro. A busca egoísta Permita-se. Divirta-se. Você também tem direito.

Não conhecer o seu corpo

Divirta-se

Como se divertir se você não sabe do que você gosta? Como ensinar para o seu companheiro o que lhe agrada se nem você sabe o caminho? Claro que você pode fazer uma exploração a dois, mas ela não substitui o exercício de auto-conhecimento que só você pode fazer. Para ganhar mais intimidade com o marido, fique íntima de si mesma.

Não conversar sobre sexo

Mais intimidade, menos vergonha
E fingir que está tudo bem, quando você já sabe que não é bem assim. Converse com o seu parceiro e seja franca com aquilo que você não gosta e com o que você gostaria de tentar. Converse com pessoas que podem ajudar - amiga de confiança, ginecologista, terapeuta. Não adianta apenas reclamar para quem não tem nada a acrescentar, não compartilhe sua intimidade em vão.

Aproveite tudo de bom em seu casamento. Inclusive o sexo.

#Recomendo 2

Aconteceu muita coisa aqui desde o último #Recomendo, inclusive a mudança no layout no blog. O layout anterior não me permitia instalar o Disqus nos comentários, além de outras modificações que me deixavam meio presa. Isso me desestimulou muito a escrever aqui. Ultimamente só escrevia as tretas, porque essas são difíceis de segurar.

Falando em tretas, tivemos uma treta em série sobre os efeitos colaterais de uma sociedade repleta de direitos: arrogância, negligência e ingratidão.
  • Quem se interessou por esses temas está convidado a conhecer um pouco mais sobre o liberalismo clássico - não confundir com "neoliberalismo" ou "capitalismo" ou "direita". Trata-se de uma filosofia política que tem como valor máximo a liberdade individual e, por consequência, uma interferência menor do Estado na vida das pessoas. Esse textão(ão(ão)) explica muito bem o conceito.
  • Pra ajudar a criar uma atmosfera de empatia, gratidão, fraternidade, ouça a playlist Fellin' Good no Spotify.


Em março aproveitamos o Dia Internacional da Mulher para falar sobre as donas de casa desesperadas, texto que gerou uma treta adicional no meu facebook
  • Se você achou interessante essa abordagem de como o feminismo afeta as mulheres que estão fora do movimento, os vídeos do Factual Feminism são muito legais se você consegue ver em inglês (com legendas em inglês).
  • Se você prefere fazer reflexões em meio a risos e lágrimas, veja a série Desperate Housewives, uma dramédia sobre a vida de diferentes donas de casa, com oito temporadas disponíveis na Netflix.

Durante a votação para abertura do processo de impeachment, vimos alguns argumentos infantis que foram usados não apenas nas redes sociais, mas também nas casas legislativas.
  • Para quem se identificou com algum desses argumentos e deseja melhorar, duas coisas são necessárias: a mente aberta, inclusive com disposição para eventualmente mudar de ideia, e muita leitura crítica, inclusive de autores que não concordam com você - talvez eu seja um deles.
  • Se você ainda não entendeu como funciona o impeachment e a que pé as coisas andam, o Politize tem um post bem didático. Os maiores jornais online têm infográficos explicando o passo a passo do processo.


A treta dessa semana teve como tema a campanha contra a cultura do estupro, a qual, resumida em uma palavra, se traduz por machismo.

Também há algum tempo atrás eu falei sobre a minha biblioteca. Já ultrapassamos 400 volumes! Você tem uma biblioteca? Tem alguma dica para seleção de acervo, conservação, controle, empréstimos? Compartilhe comigo!
Você viu o que tem na minha bolsa? Quer mostrar a sua? Lembre-se de marcar o meu Instagram na foto e não se esqueça da tag #whatsinmybag. Você pode ver outras bolsas na tag do Instagram, no Flickr ou nesse Tumblr bacana.

O que você recomenda? Escreva aí nos comentários.

O que você tem em sua bolsa?


Essa é a minha bolsa no fim de tarde de uma terça-feira.


Não vivo sem: carteira e óculos de sol. Tenho pavor de sair sem documentos e detesto sair com a carteira na mão. Às vezes saio de casa só com quatro itens na bolsa: carteira, óculos, celular e chave.

Outros itens comuns na minha bolsa são creme de mão, o batom que estava usando, o livro que estava lendo, absorvente, band-aid, canetas e lápis. O celular não aparece porque eu usei para tirar a foto.

A embalagem vazia é de um chocolate que comi no dia e que foi pro lixo logo após a foto. Talvez seja o item mais "inusitado", ele está ali porque não há muitas lixeiras pela cidade, então eu acabo guardando o lixo na bolsa para descartar em casa. O papel dobrado é um recibo de um pagamento que fiz naquele dia e que também foi para o seu destino.

Não é uma bolsa cheia de coisas, somente o essencial. No entanto, não senti falta de nada. Na verdade, algumas coisas eu sequer usei: livro, absorvente, batom, band-aid.

Quem é você? Você é aquela pessoa que deixa até a carteira em casa ou não sai sem bolsa/mochila? Carrega o mundo nas costas ou só leva o indispensável? O que você não vive sem? Você carrega alguma coisa esquisita que ninguém ou pouca gente tem?

Como acabar com a cultura do estupro

Num mundo em que uma mulher é estuprada a cada 11 minutos, não há uma mulher que você conheça que não tenha sido assediada. Por que isso acontece tanto? Porque o estupro de uma menina por trinta homens não começa com trinta homens saindo de suas casas decididos a fazer sexo com a mesma menina. Começa com as pequenas atitudes, coisas que, inclusive, são consideradas normais, mas que criam isso que chamamos "cultura do estupro". Porque se algo acontece com a mesma frequência que passa um ônibus na rua, não é mais exceção, é algo que faz parte da cultura, é algo que já está normalizado.


Como adultos, somos responsáveis por fazer adultos melhores para as próximas gerações. Só se muda cultura com uma cultura diferente. Pequenos passos como estes:


Donas de Casa Desesperadas

O título parece até uma redundância. Quando alguém fala em "dona de casa", a imagem que vem à cabeça é de uma pessoa que sofre. Aquela senhora que aparenta ter vinte anos a mais, vestindo seu avental e chinelos, lenço na cabeça e vassoura na mão. A expressão do rosto é de desespero.


Não é pra menos. A dona de casa é a pessoa responsável pelas tarefas consideradas mais desagradáveis no ambiente doméstico. Lavar a louça, passar a roupa, limpar a bunda de criança. Aquele serviço sem reconhecimento, sem cooperação, sem apoio e sem fim. Mas o cachorro que derruba a lixeira depois de um dia de faxina ou a criança fazendo xixi no sofá não estão entre os motivos que levaram as rainhas do lar ao desespero ao longo dos anos. (Embora muitos episódios semelhantes tenham servido de estopim para uma crise nervosa...)

Não ter escolha


Por muito tempo, as mulheres tinham um papel na sociedade. Casa, marido, filhos. Não necessariamente nessa ordem. Os meninos cresciam para ser engenheiros, cientistas, operários, motoristas, jornalistas, professores, advogados, médicos, contadores, fazendeiros, banqueiros... essa lista nunca diminuiu. As meninas já tinham o seu destino traçado desde o primeiro choro. Casa, marido, filhos. Não necessariamente nessa ordem.

"Eu uso meus conhecimentos de física para assar esse peru."
Sempre houve uma ou outra teimosa, mas essas exceções apenas confirmavam a regra de que as mulheres viviam como formigas, cumprindo o único papel na sociedade que havia sido designado para elas. Esta vida sem escolhas ainda é realidade de muitas mulheres que vivem em sociedades menos desenvolvidas.

Algumas pessoas são mais confortáveis com a estabilidade, ou simplesmente resignadas. Quem não tem esse tipo de personalidade pode realmente entrar em desespero, especialmente aquelas mulheres que não possuem muitas habilidades domésticas. Desejar viver de outra forma quando não há outra forma para se viver é desesperador.

Ter escolhas demais


Muita coisa aconteceu no mundo moderno desde então. A mulher conquistou diversos direitos e conseguiu oportunidades e espaços em áreas onde nunca antes fora vista. Trabalho, voz, voto, salário, educação superior, carteira de motorista, anticoncepcional, eletrodomésticos, movimentos sociais. Todas essas coisas contribuíram para conduzir a mulher moderna aos dias de hoje.
A jornada dupla da presidenta não é fácil.
De "simples dona de casa" para "além de tudo, dona de casa". Precisa trabalhar para ser bem-sucedida, complementar a renda doméstica, ter satisfação na vida. Precisa cuidar da casa, porque hoje em dia ninguém mais consegue manter uma empregada doméstica e é preciso ter um pouco de higiene pelo amor de Deus. Precisa ser mãe porque afinal de contas quem pariu Matheus que o embale. Precisa dar atenção ao marido porque se ele não encontrar em casa vai procurar na rua. Precisa ser excelente em todas essas coisas, porque você é mulher, você é a mulher maravilha, você é multifuncional.

O machismo contribui para esse cenário. Muitas coisas de homem se tornaram coisas de todo mundo, enquanto muitas coisas de mulher continuaram sendo coisas de mulher. Os brinquedos das crianças não mudaram. E a mulher, que é também dona de casa, entre outras coisas, é desesperada. Desesperada de culpa, porque ela não é um polvo e não pode fazer com excelência oito coisas ao mesmo tempo. Desesperada por não saber escolher o que é mais importante. Desesperada porque está cansada, não só do trabalho doméstico - de tudo.

Não poder escolher


Somos uma geração de mulheres que chegou ao mercado de trabalho para buscar e provar a igualdade de gênero. Cada uma de nós cresce com esse dever moral de honrar todas as mulheres do passado que lutaram pelos nossos direitos, pela nossa liberdade. Precisamos conquistar o mundo. Precisamos provar que elas estavam certas. Precisamos provar que homens e mulheres são iguais.

Mas, apesar de tudo, ainda existem mulheres que querem ser simples donas de casa. Mas essa não é uma opção viável. Ser dona de casa hoje é se contentar com a mediocridade. Ela é vista como a dondoca sustentada pelo marido, que não faz nada o dia inteiro, afinal de contas, com todos os eletrodomésticos que temos hoje...

Então elas se tornam mães. e se intitulam "mãe em tempo integral". Um título melhor porque, além de dar uma ocupação a mais, dá um significado altruísta à sua escolha: deixei a carreira pelos meus filhos. A METI é julgada, sentenciada e condenada pela sociedade. Eu criei meus filhos trabalhando quarenta e quatro horas por semana e estão todos ótimos. Essas mulheres vão criar uma geração de crianças mimadas. Foi pra isso que você estudou? Pra limpar bunda de criança?

A dona de casa contemporânea está desesperada porque ela não encontra o apoio de que precisa para ser quem ela quer ser. Pior que isso, suas irmãs, amigas e colegas a olham com inferioridade, enxergam-na como uma traidora das conquistas femininas, uma coitada que se rendeu ao sistema. "Moça, você é machista" porque você escolheu não tomar o seu lugar no mercado de trabalho. Moça, você não tem ideias próprias. Moça, você não escolheu ser dona de casa, sua escolha não foi livre ou consciente, seu cérebro está dominado pelo machismo. Moça, você está sozinha. E desesperada.