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She's Beautiful, No Matter Her Mood

Na semana passada eu assisti a esse documentário She's Beautiful When She's Angry na Netflix, enquanto limpava a cozinha. Não temos empregada, então as pessoas que limpam são as pessoas que moram aqui. Eu gosto de assistir filmes e séries enquanto faço a limpeza, o marido gosta de ouvir palestras no youtube. Cada um com seu hobby...


Enfim, estava assistindo esse documentário tentando - e não conseguindo - ser convencida, comovida ou impelida a me engajar na luta feminista. Dando uma chance, sabe. Eu sempre dou chances para a argumentação, afinal de contas, como diz um amigo meu, eu sei que estou errada em várias coisas, eu só não sei quais. É por isso que leio, ouço, assisto e inicio discussões como essa. A gente precisa conhecer ideias diferentes para realmente pensar.

Eu tinha essa ideia de que o feminismo de hoje - opressor, irracional, repleto de ódio - não passava de uma aberração mutante do feminismo do outro século, que conquistou direitos para as mulheres, como o direito de votar, de estudar e de poder escolher uma profissão e seguir uma carreira. Respeito e admiro muito as pessoas - mulheres e homens - responsáveis por essas conquistas. No entanto, fiquei decepcionada - e bastante chocada - ao notar que o feminismo de ontem foi tão fanático, absurdo e sem noção quanto o de hoje.


Estamos lutando pelas mesmas coisas

As lutas de cinquenta anos atrás são as mesmas de hoje. Isso significa que avançamos muito pouco. Os padrões de beleza e a necessidade de buscar sempre a conformidade a esse padrão. A divisão das tarefas domésticas e a necessidade de que os pais sejam pais e não meros figurantes. O medo, o pavor de engravidar, porque isso vai arruinar completamente a sua vida. Se você fosse estuprada, as pessoas não acreditariam em você, e ainda teria que passar vergonha na delegacia, colocariam a culpa na sua roupa, no seu modo de andar, no que você estava fazendo a essa hora da noite. Se você apanhar em casa, você não vai fazer nada, porque não tem para onde ir, nem alguém que a socorra.

Estes foram os temas que abriram o documentário. Esses eram os assuntos que, felizmente e já não era sem tempo, trazidos à tona naquele momento. O problema é: isso era há cinquenta anos e ainda é hoje. Ainda precisamos nos lembrar da nossa própria beleza, ainda precisamos comprar algumas brigas para que o homem participe da vida doméstica. Ainda precisamos ser a pessoa que se preocupa com contracepção e que exige o uso da camisinha, porque ainda temos as mesmas opções se acaso uma gravidez surgir no caminho. Ainda somos abusadas de todas as formas e ainda desacreditadas e culpabilizadas.
O pai no trabalho, a mãe no protesto, a criança na creche: mais uma geração contaminada pelo machismo

Escolhendo as lutas erradas

Mas podemos falar sobre isso. Ótimo. No entanto, em cinquenta anos de lutas, seria apenas razoável exigir algo mais do que apenas a oportunidade de falar até o primeiro homem nos interromper, a primeira criança chorar ou o arroz começar a queimar. Isso porque o feminismo, desde cinquenta anos atrás, escolheu lutar as lutas erradas, atacando as pessoas e as instituições da sociedade, em vez de focar na cultura que permeia a todas elas e que as torna malignas. Não são as pessoas, nem os homens, nem o casamento, nem a maternidade os vilões dessa história: é o machismo.

No documentário, uma das mulheres relata sobre o momento em que decidiram queimar seus diplomas. Elas eram formadas em diversas áreas - história, arte, literatura - mas se deram conta de que, mesmo com a sua formação, não sabiam nada sobre a história das mulheres, e que os seus conhecimentos sobre mulheres na arte e na literatura eram parcos. Portanto, decidiram queimar seus diplomas. Um gesto simbólico que diz o quanto a causa não faz sentido algum. 

A solução que elas encontraram não trouxe nenhuma aprendizagem sobre qualquer área do conhecimento relacionada à mulher, não ajudou nenhuma outra mulher a obter esse conhecimento, de fato, não teve nenhum resultado prático senão fazer com que aquelas mulheres perdessem os seus diplomas - diplomas que conquistaram com toda a dignidade possível. Jogaram no lixo, isto é, no fogo.

E se elas usassem seus diplomas para promover a pesquisa sobre as mulheres? Que tal partir do seu ponto de desconhecimento para o ponto em que se conhece algo, e então repassar aos demais? Não seria melhor tirar os diplomas das chamas, e fazer com eles algo para ajudar as outras mulheres? Eu espero que a faculdade emita uma segunda via...
Tirando o foco aqui porque os meus direitos são mais importantes, desculpa.


Lutando contra nós mesmas

O documento mostra conflitos no movimento feminista. Porque as mulheres são diferentes umas das outras, embora muitas lutas sejam comuns a todas, cada grupo de mulheres tem uma agenda específica. Quando cada um desses grupos resolveu que estava na hora de chamar a atenção do mundo para a sua agenda - lésbicas, mães, negras, hispânicas, universitárias... - a luta de todas contra o machismo se enfraqueceu.

Mantemos essa irracionalidade ainda hoje. Luta-se pelo feminismo, em vez de lutar contra o machismo. Pelas causas de cada uma das minorias, em vez de unir forças contra o megazord que estraga a vida de todo mundo - não apenas, mas principalmente as mulheres. E eu não digo que essas questões não devem ser abordadas ou que elas não sejam importantes, porque são. No entanto, hoje nós precisamos de foco, mais do que nunca.

Se em cinquenta anos de lutas não fizemos muito para acabar com o machismo - francamente, isso são duas gerações, quer dizer, nem em nossas casas nós conseguimos transformar a realidade? - foi porque não tivemos foco. A luta das mulheres todo esse tempo não foi contra o machismo, não atacamos a cultura, não acabamos com a compreensão de que as mulheres ocupam um lugar inferior no mundo.

Eu vou ficar zangada, sim, quando eu precisar da raiva para resolver alguma coisa. Mas nem sempre eu preciso. Eu consigo convencer as pessoas sobre a razão e ainda ser gentil. Eu consigo ser gentil e ainda assim ser assertiva. Eu não preciso fazer loucuras para ser levada a sério. Eu me responsabilizo para que as gerações depois de mim não sejam contaminadas com o machismo. Porque eu sou linda, com qualquer humor, com qualquer sorriso.

#Recomendo 2

Aconteceu muita coisa aqui desde o último #Recomendo, inclusive a mudança no layout no blog. O layout anterior não me permitia instalar o Disqus nos comentários, além de outras modificações que me deixavam meio presa. Isso me desestimulou muito a escrever aqui. Ultimamente só escrevia as tretas, porque essas são difíceis de segurar.

Falando em tretas, tivemos uma treta em série sobre os efeitos colaterais de uma sociedade repleta de direitos: arrogância, negligência e ingratidão.
  • Quem se interessou por esses temas está convidado a conhecer um pouco mais sobre o liberalismo clássico - não confundir com "neoliberalismo" ou "capitalismo" ou "direita". Trata-se de uma filosofia política que tem como valor máximo a liberdade individual e, por consequência, uma interferência menor do Estado na vida das pessoas. Esse textão(ão(ão)) explica muito bem o conceito.
  • Pra ajudar a criar uma atmosfera de empatia, gratidão, fraternidade, ouça a playlist Fellin' Good no Spotify.


Em março aproveitamos o Dia Internacional da Mulher para falar sobre as donas de casa desesperadas, texto que gerou uma treta adicional no meu facebook. 
  • Se você achou interessante essa abordagem de como o feminismo afeta as mulheres que estão fora do movimento, os vídeos do Factual Feminism são muito legais se você consegue ver em inglês (com legendas em inglês).
  • Se você prefere fazer reflexões em meio a risos e lágrimas, veja a série Desperate Housewives, uma dramédia sobre a vida de diferentes donas de casa, com oito temporadas disponíveis na Netflix.

Durante a votação para abertura do processo de impeachment, vimos alguns argumentos infantis que foram usados não apenas nas redes sociais, mas também nas casas legislativas.
  • Para quem se identificou com algum desses argumentos e deseja melhorar, duas coisas são necessárias: a mente aberta, inclusive com disposição para eventualmente mudar de ideia, e muita leitura crítica, inclusive de autores que não concordam com você - talvez eu seja um deles.
  • Se você ainda não entendeu como funciona o impeachment e a que pé as coisas andam, o Politize tem um post bem didático. Os maiores jornais online têm infográficos explicando o passo a passo do processo.


A treta dessa semana teve como tema a campanha contra a cultura do estupro, a qual, resumida em uma palavra, se traduz por machismo.

Também há algum tempo atrás eu falei sobre a minha biblioteca. Já ultrapassamos 400 volumes! Você tem uma biblioteca? Tem alguma dica para seleção de acervo, conservação, controle, empréstimos? Compartilhe comigo!
Você viu o que tem na minha bolsa? Quer mostrar a sua? Lembre-se de marcar o meu Instagram na foto e não se esqueça da tag #whatsinmybag. Você pode ver outras bolsas na tag do Instagram, no Flickr ou nesse Tumblr bacana.

O que você recomenda? Escreva aí nos comentários.

Como acabar com a cultura do estupro

Num mundo em que uma mulher é estuprada a cada 11 minutos, não há uma mulher que você conheça que não tenha sido assediada. Por que isso acontece tanto? Porque o estupro de uma menina por trinta homens não começa com trinta homens saindo de suas casas decididos a fazer sexo com a mesma menina. Começa com as pequenas atitudes, coisas que, inclusive, são consideradas normais, mas que criam isso que chamamos "cultura do estupro". Porque se algo acontece com a mesma frequência que passa um ônibus na rua, não é mais exceção, é algo que faz parte da cultura, é algo que já está normalizado.


Como adultos, somos responsáveis por fazer adultos melhores para as próximas gerações. Só se muda cultura com uma cultura diferente. Pequenos passos como estes:


Donas de Casa Desesperadas

O título parece até uma redundância. Quando alguém fala em "dona de casa", a imagem que vem à cabeça é de uma pessoa que sofre. Aquela senhora que aparenta ter vinte anos a mais, vestindo seu avental e chinelos, lenço na cabeça e vassoura na mão. A expressão do rosto é de desespero.


Não é pra menos. A dona de casa é a pessoa responsável pelas tarefas consideradas mais desagradáveis no ambiente doméstico. Lavar a louça, passar a roupa, limpar a bunda de criança. Aquele serviço sem reconhecimento, sem cooperação, sem apoio e sem fim. Mas o cachorro que derruba a lixeira depois de um dia de faxina ou a criança fazendo xixi no sofá não estão entre os motivos que levaram as rainhas do lar ao desespero ao longo dos anos. (Embora muitos episódios semelhantes tenham servido de estopim para uma crise nervosa...)

Não ter escolha


Por muito tempo, as mulheres tinham um papel na sociedade. Casa, marido, filhos. Não necessariamente nessa ordem. Os meninos cresciam para ser engenheiros, cientistas, operários, motoristas, jornalistas, professores, advogados, médicos, contadores, fazendeiros, banqueiros... essa lista nunca diminuiu. As meninas já tinham o seu destino traçado desde o primeiro choro. Casa, marido, filhos. Não necessariamente nessa ordem.

"Eu uso meus conhecimentos de física para assar esse peru."
Sempre houve uma ou outra teimosa, mas essas exceções apenas confirmavam a regra de que as mulheres viviam como formigas, cumprindo o único papel na sociedade que havia sido designado para elas. Esta vida sem escolhas ainda é realidade de muitas mulheres que vivem em sociedades menos desenvolvidas.

Algumas pessoas são mais confortáveis com a estabilidade, ou simplesmente resignadas. Quem não tem esse tipo de personalidade pode realmente entrar em desespero, especialmente aquelas mulheres que não possuem muitas habilidades domésticas. Desejar viver de outra forma quando não há outra forma para se viver é desesperador.

Ter escolhas demais


Muita coisa aconteceu no mundo moderno desde então. A mulher conquistou diversos direitos e conseguiu oportunidades e espaços em áreas onde nunca antes fora vista. Trabalho, voz, voto, salário, educação superior, carteira de motorista, anticoncepcional, eletrodomésticos, movimentos sociais. Todas essas coisas contribuíram para conduzir a mulher moderna aos dias de hoje.
A jornada dupla da presidenta não é fácil.
De "simples dona de casa" para "além de tudo, dona de casa". Precisa trabalhar para ser bem-sucedida, complementar a renda doméstica, ter satisfação na vida. Precisa cuidar da casa, porque hoje em dia ninguém mais consegue manter uma empregada doméstica e é preciso ter um pouco de higiene pelo amor de Deus. Precisa ser mãe porque afinal de contas quem pariu Matheus que o embale. Precisa dar atenção ao marido porque se ele não encontrar em casa vai procurar na rua. Precisa ser excelente em todas essas coisas, porque você é mulher, você é a mulher maravilha, você é multifuncional.

O machismo contribui para esse cenário. Muitas coisas de homem se tornaram coisas de todo mundo, enquanto muitas coisas de mulher continuaram sendo coisas de mulher. Os brinquedos das crianças não mudaram. E a mulher, que é também dona de casa, entre outras coisas, é desesperada. Desesperada de culpa, porque ela não é um polvo e não pode fazer com excelência oito coisas ao mesmo tempo. Desesperada por não saber escolher o que é mais importante. Desesperada porque está cansada, não só do trabalho doméstico - de tudo.

Não poder escolher


Somos uma geração de mulheres que chegou ao mercado de trabalho para buscar e provar a igualdade de gênero. Cada uma de nós cresce com esse dever moral de honrar todas as mulheres do passado que lutaram pelos nossos direitos, pela nossa liberdade. Precisamos conquistar o mundo. Precisamos provar que elas estavam certas. Precisamos provar que homens e mulheres são iguais.

Mas, apesar de tudo, ainda existem mulheres que querem ser simples donas de casa. Mas essa não é uma opção viável. Ser dona de casa hoje é se contentar com a mediocridade. Ela é vista como a dondoca sustentada pelo marido, que não faz nada o dia inteiro, afinal de contas, com todos os eletrodomésticos que temos hoje...

Então elas se tornam mães. e se intitulam "mãe em tempo integral". Um título melhor porque, além de dar uma ocupação a mais, dá um significado altruísta à sua escolha: deixei a carreira pelos meus filhos. A METI é julgada, sentenciada e condenada pela sociedade. Eu criei meus filhos trabalhando quarenta e quatro horas por semana e estão todos ótimos. Essas mulheres vão criar uma geração de crianças mimadas. Foi pra isso que você estudou? Pra limpar bunda de criança?

A dona de casa contemporânea está desesperada porque ela não encontra o apoio de que precisa para ser quem ela quer ser. Pior que isso, suas irmãs, amigas e colegas a olham com inferioridade, enxergam-na como uma traidora das conquistas femininas, uma coitada que se rendeu ao sistema. "Moça, você é machista" porque você escolheu não tomar o seu lugar no mercado de trabalho. Moça, você não tem ideias próprias. Moça, você não escolheu ser dona de casa, sua escolha não foi livre ou consciente, seu cérebro está dominado pelo machismo. Moça, você está sozinha. E desesperada.