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Cosmovisão Bíblica Familiar (Série Essencial Invisible College)

Esta é uma série de textos escritos para o curso de Teologia Essencial do Invisible College. O curso consistiu no estudo de um tema da teologia por mês com leitura de um livro, materiais complementares em texto, áudio e vídeo, um fórum de perguntas e respostas com um convidado, uma sessão de tutoria com um dos professores em um grupo pequeno e a entrega de um texto (resenha ou artigo). O texto a seguir foi escrito em Abril de 2021 para o tema Cosmovisão.




A família é a instituição mais antiga do mundo. As relações familiares traçaram hierarquias e limites, desenvolveram sociedades e culturas e moldaram o pensamento humano. A própria identidade é determinada e, ao mesmo tempo, determina a função que o sujeito exerce na família e, consequentemente, na sociedade. A partir da família e de suas necessidades de sobrevivência e crescimento determina-se o que é um adulto e uma criança, quais são as funções de um homem e de uma mulher, de uma mãe e de uma avó.

As relações familiares recebem muita influência da religião e da filosofia do seu tempo, mas são passadas de geração em geração, principalmente, pela tradição: a contação de histórias, a repetição de comportamentos, a atenção à sabedoria anciã. O costume dos mais velhos continua sendo um grande valor em diversas civilizações.

Na cultura ocidental, o desenvolvimento da psicologia e dos estudos sobre a infância e o comportamento no decorrer do século XX impactaram a família e suas relações. Essa diferença é bastante percebida no livro “A visão transformadora”, quando os autores demonstram a manifestação de uma cosmovisão até mesmo nos atos mais ordinários da vida, como o banho dos bebês. Mesmo sem pensar a respeito, os aspectos mais banais da vida comum e familiar são regidos por uma cosmovisão, que cria a “cultura familiar”. São os valores formativos da infância e as tradições passadas entre as gerações.

O ambiente familiar forma e propaga cosmovisões, mas existem outros momentos e ambientes propícios a crises que podem levar a romper e adotar uma cosmovisão a partir de uma nova perspectiva de vida. A formação de uma nova família pode ser um desses momentos de crise, quando aqueles que estão prestes a se tornar pais têm a oportunidade de refletir sobre a sua cultura e abraçar ou romper com a visão de mundo que conheceram na infância. Mas o que define exatamente uma cosmovisão?

Cosmovisão é uma estrutura perceptiva: uma visão de vida e uma visão para a vida. Ela dá resposta às questões fundamentais da vida: quem eu sou? Onde estou? O que está errado? Qual é a solução? Essas questões baseiam os anseios e crenças fundamentais, a razão de viver e morrer, as relações interpessoais e das pessoas com o mundo. No entanto, nem sempre essa estrutura perceptiva é percebida, como a criança que cresce míope e, como nunca conheceu o mundo de outra forma, pensa que ele é assim como ela o enxerga, e que todas as pessoas devem enxergar assim também.

Nesse sentido, é interessante observar que, para WALSH & MIDDLETON, uma boa cosmovisão deve estar ciente de suas limitações e disposta a aprender. Isto porque toda cosmovisão é uma interpretação humana sobre a vida e o mundo. Ainda que a cosmovisão se denomine cristã ou bíblica, nenhuma cosmovisão é o cristianismo ou as Escrituras. A cosmovisão que se denomina bíblica deverá sempre voltar à fonte para entender o mundo por meio de uma compreensão cada vez maior das Escrituras.

Perceber a cosmovisão não é importante apenas para mudar de direção. A consciência permite a autocrítica e o refinamento. Será sempre necessário examinar se a prática condiz com o discurso ou se estamos embarcando em dualidades, rejeitar aquilo que não pertence e aprofundar as raízes nas fontes da cosmovisão adotada.

Mesmo entre os cristãos confessionais, a cosmovisão dominante interfere e muitas vezes suplanta a cosmovisão bíblica na vida familiar, vista como um campo privado à parte da vida religiosa. Diversas influências e filosofias que adentram as famílias para dar uma nova perspectiva à educação dos filhos trazem também cosmovisões ou fragmentos de cosmovisões que contaminam as respostas já conhecidas para as perguntas fundamentais.

Esse movimento secular é respondido por outro movimento preocupado em preservar e resgatar as tradições e a religiosidade familiar. É importante que essa preocupação não se torne uma obsessão, com tendências monásticas, para blindar a cultura familiar de qualquer influência externa. Essa blindagem impede a visão dos seus verdadeiros limites e extingue a permeabilidade com a qual podemos aprender – características de uma boa cosmovisão.

Precisamos lembrar que cosmovisões são estruturas humanas. Trata-se da nossa visão imperfeita do mundo e para o mundo. Somente Deus tem a visão perfeita. Quando nos aproximamos de Deus, estudando as Escrituras e experimentando o agir do Espírito Santo, somos contemplados com a sua visão. Como a criança míope que usa óculos pela primeira vez, percebemos, enfim, como era distorcido o mundo que ela enxergava. Essa nova consciência também nos faz perceber o quanto precisamos de Deus.

A vida familiar, assim como a economia, a arte, a ciência, a agricultura, é resposta ao mandato cultural de Deus. Mas isso não faz de nenhum modelo familiar o modelo correto. Como parte de uma estrutura humana, a família também está caída. Assim, muito embora não possamos afirmar que não exista um modelo familiar correto e bíblico – porque a verdade absoluta existe e está presente em Cristo – seria também errado afirmar que qualquer modelo humano seja algo mais do que uma tentativa de aproximação do ideal divino.

Quando se trata de criação de filhos, há uma forte tendência de deixar que as relações se desenvolvam “naturalmente”, repetindo ciclos e mantendo tradições sem refletir sobre a conveniência dessa permanência. Contrariando esse pensamento, muitos pais e mães têm refletido sobre a sua parentalidade à luz do conhecimento adquirido na academia e em outros meios de estudo. Essas reflexões ensejam a profundidade e o discernimento de que carecem muitos pais que não sabem explicar por que agem como agem, às vezes até contrariando sua própria vontade.

É importante conhecer o desenvolvimento humano, o funcionamento da mente e da aprendizagem, as relações sociais e as formas de comunicação mais eficientes. Da mesma forma, é útil para a educação de filhos conhecer métodos de aprendizagem, pedagogias alternativas à formação dominante, comunicação não violenta, disciplina positiva e tantas outras teorias e abordagens comportamentais, bem como suas críticas. Todo esse conhecimento deve ser levado cativo às Escrituras e confrontado com a Palavra de Deus para permear a cosmovisão bíblica familiar. A boa cosmovisão bíblica usará a Bíblia não como escudo contra qualquer teoria humana, mas como filtro para examinar todas estas coisas, retendo o que é bom.

De outro modo, a vigilância se aplica ao consultar as Escrituras, não para examinar o texto bíblico, mas o olhar do leitor, que pode estar contaminado, embaçado ou distraído por outras “verdades”. É necessário achegar-se às Escrituras com o coração contrito e quebrantado, disposto a aprender e abandonar os ídolos do coração. Não confrontamos o texto bíblico com aquilo que aprendemos, mas somos confrontados pelo Espírito Santo a respeito daquilo que assumimos como verdade. O examinador humilde examina a si mesmo.

O tema da família traz implicações muito íntimas. Alguns dirão que a família é sagrada, outros carregam marcas de abuso e violência que colocaram essa importante instituição em descrédito. Em qualquer circunstância, precisamos lembrar que a família foi criada por Deus, e como tal é valiosa; mas que também sofre as consequências da queda, como toda a Criação. Acima de tudo, precisamos lembrar que nossa esperança não está em métodos mais eficientes, esforços mais dedicados ou normativas mais rigorosas, mas na redenção em Cristo Jesus. Enquanto isso, precisamos entender os fenômenos culturais e submetê-los ao senhorio de Cristo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. 2. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2018.

GOHEEN, Michael W; BARTHOLOMEW, Craig G. Introdução à cosmovisão cristã: vivendo na intersecção entre a visão bíblica e a contemporânea. São Paulo: Vida Nova, 2016.

WALSH, Brian; MIDDLETON, J. Richard. A visão transformadora. São Paulo: Cultura cristã, 2010.

4 dicas para viajar tranquila com crianças (até sozinha!)

Sair sozinha com crianças no plural dá trabalho, mas ficar em casa também dá. Por mais que a rotina seja amiga, de vez em quando é bom passar um perrengue diferente, mas sem enlouquecer. No início do mês eu viajei para participar de uma conferência com um bebê de 1 ano. Depois, decidi levar também a filha mais velha e no fim das contas o marido foi também... só que voltou mais cedo, e nos três dias que fiquei sozinha com elas, tirei algumas lições.



1. Tenha pessoas

Engraçadinha, né. A primeira dica para viajar sozinha é não estar sozinha?! Se você não está com alguém que divide com você a responsabilidade pela criança, então você está sozinha, sim. Mesmo que esteja com avó, melhor amiga, grupo de amigos... se eles vão te chamar na hora de trocar as fraldas, então está sozinha, sim. 
Mas olha, é muito melhor ter essas pessoas do que não ter nenhuma. É alguém pra descansar o seu braço com tanto colo, pra olhar enquanto você vai ao banheiro... Rede de apoio é isso, sabe? Quem não tem obrigação, mas tá ali, ajudando. Se for pra viajar sozinha, com rede de apoio é sempre melhor.

2. Prepare-se para não ter ajuda nenhuma, aceite toda a ajuda que conseguir

Não dá pra sair contando com o trabalho dos outros. Mesmo que tenha sido combinado, eu sempre tenho um plano B. E se a criança não quiser ficar com a vovó? Se ela não gostar do espaço infantil? Se o motorista não quiser te ajudar a instalar as cadeirinhas, você sabe fazer sozinha? Consegue fazer com criança e tudo? Não ser pega de surpresa pelo perrengue torna a situação menos difícil.
A minha dificuldade com isso é estar tão preparada pra fazer tudo sozinha que acabo dispensando ajudas que tornariam tudo muito mais fácil. Sim, você dá conta, mas não precisa. Economiza essa energia e usa as carinhas fofas das crianças pra conquistar a simpatia e a gentileza de quem estiver por perto. Aceitar ajuda não diminui em nada quem você é e o que você faz.

3. Foco nas necessidades básicas

Alimentação, sono, banheiro... nada será como antes você faz em casa, mas de alguma forma isso precisa acontecer. Por isso que viajar com bebê é bem mais fácil: mama no peito, dorme no colo, xixi na fralda... Se a criança for maior, ainda tem outras necessidades: interação social, movimento, estímulos sensoriais. A criança que não para de falar, de correr, de se esfregar nas coisas (!) está tentando suprir uma necessidade.
Na bolsa das crianças sempre tem uma troca de roupa e de fralda, água fresca e lanche seco (biscoito de polvilho, uva passa, bolacha de arroz...). Dependendo da programação e do local, pode ter também uma fruta cortadinha, material para desenho, livro de colorir, o brinquedo favorito (se não for barulhento)... Qual é o seu truque dentro da bolsa? Compartilha com a gente nos comentários.

4. Mantenha a rotina, mas não tanto

Não adianta querer que tudo funcione como em casa. "Sair da rotina" é um pouco do objetivo da viagem. Descansar da rotina. Isso não significa "meter o pé na jaca". A criança vai precisar de algumas "âncoras", e você também. Se não der pra manter o horário de dormir, a sequência da rotina noturna pode ser a mesma. Usar telas em determinados momentos pode ser estratégico, perder a mão aí pode atrapalhar o resto do dia.
Não são só as crianças que são rígidas. Às vezes a gente se acostuma tanto a fazer as coisas de um jeito específico, que entra em crise quando não dá pra fazer exatamente igual (e é por isso que tem gente que leva a casa toda na viagem). É legal experimentar. Mostre isso para as crianças, permitindo-se experimentar também. Três dias de banho de chuveiro não vão quebrar a criança que sempre toma banho de banheira. Cuidado para não se viciar nos confortos de casa de tal forma que você só consegue fazer x se tiver y. 
Adaptações em viagem são exceções. As crianças sabem muito bem que esse é outro ambiente. Elas podem até pedir pelas adaptações em casa, mas há expectativa pelo retorno da rotina (mesmo na preferência da mudança). Não se preocupe com "vou ter que fazer assim pra sempre". Nada nunca é para sempre.

Ninguém está totalmente preparada, mas a gente pode se divertir no caminho. É cansativo, sim.. mas ficar em casa também cansa, e não rende tantas histórias. Não será a mesma coisa, nunca será. Mas o diferente também pode ser bom. Vamos tentar?

Eu já tinha viajado sozinha com uma criança, mas essa foi a minha primeira vez com duas. Vamos trocar dicas de mãe! Você já ouviu as minhas, deixe a sua dica nos comentários.

Relato de parto: Ana Luísa 13.10.2021

Devagar e sem pressa, Ana Luísa dava sinais de sua chegada. A experiência do primeiro parto torna as coisas mais leves. Todas as dores são conhecidas além da teoria. As inseguranças também. O primeiro parto torna todos os outros possíveis. Quando parece que não dá, é aí que termina. Mas quanto tempo a gente aguenta até chegar lá?

Maria Elisa também veio devagar, e eu sempre tomo muito cuidado ao contar para quem vai fazer essa jornada pela primeira vez. Não dá pra dizer, simplesmente, que foram trinta e seis horas de trabalho de parto, sem assustar as pessoas. Aliás, esse trabalho de parto também já foi relatado (clica pra ler). Como dizer, então, de um parto que começou no domingo à noite e terminou na madrugada de quarta-feira?


Vou começar pelo fim: foi tudo muito rápido. Do zero ao nasceu em apenas uma hora. Não deu tempo de chamar ninguém. Nem eu acreditava que já estava no fim. Eu sabia o que eram aquelas contrações, mas também sabia que não poderia ser. Já?!

Durante a semana toda eu tive contrações. Leves e fortes. Curtas e longas. Faltava ritmo. O marido lia o meu rosto e perguntava: "Vai nascer?". Eu respondia "talvez", não como quem brinca com essas coisas, mas quem sabe? Pode não ser nada, pode ser o começo de tudo. Eu vigiava sem dar muito alarme. Não queria mobilizar as pessoas antes de saber o que estava acontecendo.

No domingo à noite, coloquei Maria para dormir e avisei a doula que começaria a contar as contrações. Pedi para o marido buscar a sogra, caso as coisas ficassem animadas durante a madrugada. Enquanto ele estava fora, uma sequência de contrações longas e fortes trouxe uma sensação molhada que não fazia parte da minha experiência. Será que a bolsa estourou?

Não teve 'ploc', nem um aguaceiro pelo chão, mas o líquido escorria pelas pernas. Combinamos por telefone o encontro no hospital para avaliação. Madrugada de domingo e parecia que nenhum bebê estava a fim de nascer. A recepção estava vazia e mesmo assim o meu acompanhante foi convidado a se retirar. Um convite protocolar, não insistido, mas repetido cada vez que eu passava de uma sala para a outra. Os exames estavam bem, mas ainda sem dilatação. As contrações, que vinham embaladas, foram diminuindo até parar.

(Eu culpo o ambiente do hospital? Culpo, sim. Os funcionários, não, mas a instituição, que hostiliza as pacientes e seus acompanhantes desde a porta de entrada. O hospital conhece muito bem a legislação, e sabe que não deve impedir o cumprimento da lei... mas instrui todos os seus funcionários a agir como se desconhecesse os direitos dos pacientes, contando com a ignorância de quem precisa de atendimento.)

O início do trabalho de parto não engrenou. Parece que deu uns seis passos pra trás. Ana Luísa encaixou como uma rolha e segurou o líquido que ainda não tinha vazado. Seguimos com monitoramento e avaliações periódicas com a equipe mais paciente e querida do mundo. Em casa, esperando o trabalho começar pra valer, vendo os últimos momentos se transformarem em penúltimos, nada de muito emocionante acontecendo. Até as noites de sono ficaram mais tranquilas.

Só não era tranquilo ter que visitar o hospital. Em uma das ocasiões, meu marido foi convidado a se retirar quatro vezes nos primeiros dez minutos. A resposta era apenas uma recusa educada, mas ainda assim o segurança foi chamado. Precisamos mostrar o plano de parto e a resposta com o timbre do hospital. Ele foi consultar a enfermagem e retornou pedindo desculpas. "Realmente, como vocês têm autorização pelo plano de saúde, você tem o direito de ficar".

Pra mim, essa justificativa foi o pior de tudo. O direito ao acompanhante não é um privilégio. A declaração do hospital de que eles vão cumprir a lei porque nós fizemos um acordo gerou um constrangimento na recepção do hospital. Do lado de fora, outros acompanhantes esperam sem ter sequer um lugar para sentar. Há quinze anos, a mesma desculpa de "falta de infraestrutura", mas em todo esse tempo não faltou tempo ou recursos. Faltou vontade. O hospital "amigo da criança" é desumano com os seus pais.

Isso cansa. Tudo isso cansa. As contrações que começavam e paravam. A expectativa pela próxima violação de direitos. A ansiedade pelo tempo que passa. Monitorando, medindo, avaliando, medicando... Uma exigência do corpo e da mente, para ter paciência e esperar o tempo do parto. Na terça-feira, a minha preocupação era estar forte para chegar lá.

Maria Elisa vigiava as idas ao hospital, e agora já sabia que a irmã estava por nascer. A despedida foi tranquila, ou pelo menos pareceu. Eu fiquei arrasada pensando na nossa primeira noite distantes, prometi ligar de manhã bem cedo. Ela estava ansiosa para ver a irmãzinha. Nós também.

Quem parecia ter toda a paciência do mundo era o Thiago, nosso obstetra. Já estávamos com quase 48h de bolsa rota quando chegamos para a avaliação. Todos os parâmetros de saúde estavam bons, mas estava na hora de ter a conversa. Falamos sobre indução de parto e tiramos todas as dúvidas do caminho. Não teve pressão, nem manipulação. Eu sabia que podia escolher, mas eu já estava decidida pela indução, para parir enquanto ainda tinha forças.

Me preparei psicologicamente para uma noite daquelas. Geralmente o parto acontece na terceira dose da medicação, depois de dez horas de indução. No quarto, com marido e doula, passamos o tempo entre contrações e histórias. Quando eu resolvi descansar, meu médico voltou para avaliar o colo, que começava a dar sinais de abertura, mas ainda nem um centímetro. Ele aplicou a segunda dose e combinamos o próximo encontro para as seis da manhã... ou antes, se precisar.

Deitada por uma hora após a medicação, as contrações vinham com força. Eu queria sair da cama, ficar em qualquer posição, mas não queria perder o remédio. A Alli me ajudava com posições horizontais quando vinham as contrações, cada vez piores. Uma vez, saiu um líquido e pensei "expulsei o remédio". Ela disse que estava tudo bem. Eu só pensava em quanto tempo faltava pra sair daquela cama, e como faziam as mulheres que eram obrigadas a ficar deitadas o tempo todo.

Quase acabando o tempo, senti o expulsivo e pensei "não pode ser, é cedo". Virei de lado e me agarrei nas grades da maca enquanto fazia força. Um esguicho. Expulsei todo o líquido que ainda tinha na bolsa. Acabou a primeira hora. Mas era só a primeira hora. Se continuasse escalando assim, como eu aguentaria até as seis horas? Nem passou pela minha cabeça que eu já estava parindo.

Levantei pedindo ajuda para ir pro chuveiro amenizar as dores, mas não dei um passo. Agachei e empurrei. Ouvi a Alli dizer algo sobre sinal de dilatação e balancei a cabeça negativamente: "Está saindo... a cabeça!" Depois disso eu só lembro de ouvir correria pra lá e pra cá enquanto eu empurrava o bebê agachada no chão do quarto, ao lado da cama, segurando as mãos de Haralan por cima de uma bola de pilates. Veio com uma mão no rosto, e eu senti que descia de um para jeito diferente. Me concentrei para empurrar devagar. Ela foi amparada pelas mãos da Alli, que a entregou para mim. 2h29, 13 de outubro de 2021.

Depois que eu subi, com ajuda, na maca, não tinha mais interação com o mundo. As pessoas se movimentavam ao redor como num filme, a realidade estava todinha no meu colo. Vi a Alli, e depois o Thiago, dando ordens e criando o ambiente mais confortável que a gente queria. O pai cortou o cordão. A placenta saiu inteira. O períneo, para a minha surpresa, íntegro.

Foi um trabalho de paciência e resistência. Chegamos ao final com uma intervenção na medida certa e na hora certa, acompanhada por pessoas que me deixaram segura para esperar e decidir. Minha gratidão a eles: Alli, Thiago e Haralan. Mais um parto inesquecível pra gente.

MEU TIME 💓

Pai: Haralan Elias Melo Mucelini

Obstetra: Thiago Moura Saura

Parteira: Alli Nunes

Fisioterapeuta pélvica: Tatiane Martins

Fisioterapeuta (pilates): Luanny Nicaretta

Enxoval minimalista

Pesquise sobre enxoval de bebê e você encontrará listas, infográficos e planilhas cheias de coisas que você precisa providenciar antes do nascimento da criança. As listas incluem quantidade de meias, toucas, luvas, e podem parecer tentadoras se você, como eu, gosta de ter tudo sob controle em uma planilha. O que não se vê por aí é um debate sincero sobre quantas coisas são realmente necessárias, e para quem.

Listas de enxoval não atentam para as necessidades da família, não observam o seu estilo de vida, nem as suas escolhas de maternidade. Quando muito, fazem leves adaptações para bebês que nascem no verão ou inverno. Mas e aí, do que um bebê realmente precisa?



Um recém-nascido não precisa de coisas. Ele vem ao mundo sem nada, querendo apenas colo e leite. No colo, ele está aquecido e acolhido. No peito, ele é alimentado e hidratado. Nos braços familiares, o bebê interage com o mundo, que vai se alargando aos poucos.

Bebês não conhecem coisas, e por isso não precisam delas. Quem precisa dessas coisas somos nós, para atender melhor o bebê enquanto continuamos lidando com as demandas da vida. Se eu não posso ficar aninhada na cama aquecendo o neném o tempo todo, então preciso vesti-lo. Se eu preciso me deslocar de carro com a criança, providencio o dispositivo de segurança adequado. Se eu preciso que o bebê durma perto de mim, ou que me dê algum espaço, mas ainda fique sob minha vigilância, terei as coisas que tornam tudo isso possível, adequado e confortável. Mas essas são as minhas necessidades. Por isso, a pergunta é: do que a sua família precisa?

Não sei.

Tudo bem não saber. Ainda mais quando o primeiro filho está para chegar. A gente não sabe. Essencial em uma família pode ser uma tralha nunca usada em outro lar. E se eu não sei que mãe eu sou, como me preparar pra isso? Existem dois jeitos de lidar com isso: comprando absolutamente tudo que há no mercado infantil só pelo "vai que precisa", ou esperando até a necessidade aparecer.

Algumas coisas são de fato importantes. Outras podem ajudar. Muitas coisas são só perfumaria, e mais um monte de coisinhas vendidas por aí na verdade só atrapalham.

Alimentação

Essencial é ter leite. Algumas coisas ajudam, mas muita coisa atrapalha. Muuuuita coisa só atrapalha. Se o seu plano é amamentar, não tenha mamadeiras, chuquinhas, chupetas, leite em pó em casa. Nem como plano B. Amamentar é difícil, principalmente no começo. Se você tiver um plano B, rapidinho o plano A ficará desinteressante. Deixar essas coisas na farmácia cria um obstáculo a mais para te ajudar a persistir amamentando.

O que pode ajudar? Uma boa almofada de amamentação (grande, alta e firme é melhor), bomba extratora de leite, coletor de leite a vácuo, absorventes de seio, sutiãs e roupas adaptadas para amamentar. Eu gosto de ter um copo pequeno (importante ter a boca pequena) ou uma colher dosadora quando o peito não estiver disponível. (É mais fácil usar mamadeira que aprender a dar no copinho? Sim. Mas o mais fácil nem sempre é o melhor.)

Higiene

Essencial é água e, depois do primeiro mês, sabão. (Pois é, geralmente não precisa banhar com sabão o recém-nascido). A maioria das coisas nessa área ajuda, mas muita coisa vira tralha ao longo do tempo. Eu prefiro dar banho na pia e no chuveiro do que em banheira (o trabalho de montar, desmontar, o espaço que ocupa... não acho prático, mas isso é pessoal). Também gosto mais de um trocador portátil por perto do que ter que levar o bebê até o trocador a cada troca de fraldas. Com o passar do tempo, o trocador acaba ficando só para os passeios.

É sempre bom ter uma pomada para assaduras, e na minha opinião nenhuma é melhor que a Weleda. Não usamos sempre porque com fraldas de pano não há necessidade, mas quando necessário basta passar uma vez. Em casa limpo com algodão (em quadrados) e água, ou direto na torneira, e uso lenços umedecidos somente para sair.

Passeio

Esse é um ponto que depende muito do estilo de vida de cada família. Não vejo necessidade de um carrinho de bebê para quem não costuma andar a pé. Já a cadeirinha, considero importante mesmo para quem não tem carro. Eventualmente você pode precisar sair de carro, de carona, e não deve esperar que o dono do automóvel tenha o dispositivo adequado para o tamanho do seu bebê. Não é só para obedecer a lei, é para salvar a vida. Acho que vale o investimento.

Gosto muito de carregadores de bebê, inclusive para usar em casa. Libera as mãos para fazer as coisas e mantém a criança por perto, acolhida e segura. Todos os modelos ergonômicos - que mantém o bebê virado pra você, nunca de costas em relação a quem carrega, e que deixam o bebê sentado com os joelhos acima do quadril, e não pendurado pela virilha - são legais: slings, mei tais, mochilas...

A bolsa ou mochila é do adulto. Você é quem vai carregar. Com o passar do tempo, a gente precisa de menos coisas à mão, e já não tem necessidade de andar cheio de trem por aí. Chega o dia em que dá pra deixar uma bolsa de "extras" no carro, por exemplo, e sair só com uma babita e uma fralda. Então, a bolsa é útil, mas não é fundamental... e uma ecobag também cumpre a função.

Quarto

É aconselhável que o bebê durma no mesmo quarto que os pais até 1 ano, principalmente nos primeiros seis meses. Isso reduz o risco de morte em bebês durante o sono, seja por asfixia acidental ou pela síndrome de morte súbita do lactente. Também melhora o sono para boa parte das mães, pelo menos para mim é muito mais tranquilo dormir com o bebê por perto do que ficar levantando a noite toda pra ver se está tudo bem. Daí você já vê que não tem pressa nenhuma em aprontar o quartinho do bebê, né?

Você pode fazer isso com calma, descobrindo aquilo de que você realmente precisa e até fazer um quarto que combina com a criança, com as coisas que ela gosta. Gosto de ter um tapete de tecido, a cama baixa para deitar com a criança e manter as coisas acessíveis para livre exploração do ambiente. Essas preferências refletem o que é importante pra gente, e pra que serve o quarto da criança. Se o quarto é dela, tem que ser bonito, útil, acessível e agradável para ela. Já pensou nisso?



Resumindo

Deu pra entender que as coisas não são assim, uma lista do Pinterest, né? O que está na minha lista pode não fazer sentido nenhum pra você. "É sobre isso, e tá tudo bem". Você pode experimentar, pode mudar de ideia, desistir, repensar, testar alternativas até encontrar o que dá certo por aí.  Principalmente no primeiro filho, quando você só tem ideias e expectativas que podem se materializar ou não.A sua experiência é única, como é a sua família e o seu filho também.

Se tiver que escolher onde colocar o seu dinheiro, meu conselho é que invista em pessoas: a doula que vai segurar sua mão no dia mais importante; a pediatra que vai te atender com calma e tirar todas as suas dúvidas; a consultora de amamentação experiente que vai resolver as suas maiores dores; a diarista que vai cuidar de tudo enquanto você cuida do bebê... do que você realmente precisa?

Os ultrajovens merecem respeito

No  final dos anso 90 havia um programa infantil em que as crianças hackeavam a transmissão da TV para exibição do programa pirata do seu clubinho, o Comitê Revolucionário Ultra Jovem. O bordão do CRUJ era Eu sou ultrajovem e mereço respeito. Mais de vinte anos se passaram e os ultrajovens ainda não conseguiram o respeito da população.


Do alto do nosso cérebro adulto, supostamente plenamente desenvolvido e equilibrado, interpretamos as ações e reações das crianças como desafios à nossa existência e sacrificamos a existência e a dignidade delas o tempo todo, muitas vezes sem motivo algum. 

Não damos privacidade a uma criança em troca de fralda. Não perguntamos o que ela quer comer, ou quanto ela quer comer porque não nos importamos se ela quer comer, mas tão somente em cumprir o nosso papel de alimentar. Qualquer expressão de personalidade da criança é má-educação.

Em 1990, pela primeira vez a lei brasileira afirmou que as crianças são pessoas com direitos como todas as outras pessoas, e outros ainda em razão da sua condição peculiar de pessoa em desenvolvimento. Uma pessoa em desenvolvimento não é meia-pessoa ou quase-pessoa. É uma pessoa.

A nossa convivência com as crianças será mais pacífica quando os adultos tiverem maturidade suficiente para entender que crianças são crianças e crianças são pessoas. Os ultrajovens merecem respeito.

CRUJ, CRUJ, CRUJ, tchau.

Relato de parto: Maria Elisa - 23.01.2019


Na segunda-feira começou a sair o tampão (ele foi saindo aos pedaços durante o TP). Comentei com a fisioterapeuta, a doula e a instrutora do pilates, sem muita emoção. Pode ser hoje, amanhã, em três semanas...

Terça-feira começaram leves contrações de expansão... umas três pela madrugada, e continuando pela manhã. Perguntei pra fisio "ei, vc não esqueceu o epi-no aqui dentro? 😝". A sensação era idêntica. Fui no controle da respiração, conforme ela tinha me ensinado nas sessões e comecei a contar a duração e os intervalos com o aplicativo. Avisei a doula e o obstetra, que falou que poderia ficar assim por alguns dias ainda, "primeiros sinais, vamos ver como evolui".

Não quis alarmar a minha mãe. Falei pra ela dar uma faxina geral na casa (nesting but resting 🤣) e enquanto isso segui a orientação da doula: descansa, vc vai precisar de energia.

No fim da tarde mandei o relatório das últimas contrações pra equipe. Já estavam com ritmo, porém baixa intensidade. Eu estava meio confusa com a progressão das coisas, falei com a fisioterapeuta "É isso mesmo? Isso que é uma contração? Tá tudo certo, não tô contando errado?" Ela repassou comigo os sintomas e confirmou que eu estava, sim, entrando em trabalho de parto.

Antes de dormir mandei outro relatório das contrações pra equipe. Falei com a doula, que já estava de prontidão. Ela mandou eu parar de contar contrações e ir dormir. "Você precisa descansar!"

A madrugada foi difícil. Não consegui dormir mais de meia hora direto, sempre acordada por uma contração. O marido, atento, não dormiu nada. Lá pelas quatro da manhã ele ligou para a doula porque os intervalos já tinham diminuído bastante. Não sei o que eles conversaram, mas seguia na linha "certifique-se que ela descanse o máximo possível", porque foi isso o que ele fez.

As posições em que eu conseguia deitar e descansar geravam contrações muito mais doloridas. As posições que estimulavam a evolução eram mais confortáveis, mas aí elas vinham uma atrás das outra, e eu não conseguia descansar nada. Achei um meio termo entre sentada e deitada. Fui algumas vezes pro chuveiro, pra bola de Pilates...

Eu não conseguia mais dormir, e nem queria porque era ruim demais acordar com uma contração! 😅 Voltei a contar  as contrações e no comecinho da manhã mandei relatório pra equipe. Lá pelas sete da manhã o marido estava acabado. Se eu dormi pouco, ele dormiu nada. Chamei a doula, pensando que assim ele poderia descansar. Avisei o obstetra sobre o ritmo das últimas contrações. O obstetra ficou feliz com a evolução e já avisou no consultório que poderia precisar desmarcar as consultas. Ele disse que queria me examinar quando estivesse com contrações de 4/5 minutos de intervalo.

Quando estávamos escutando os batimentos fetais, a minha mãe acordou. Ela achou que era só um exame em casa e perguntou "e aí, será que nasce por esses dias?" 🤣 "Olha, talvez nasça ainda hoje!" Só então eu contei pra minha mãe que estava com contrações desde o dia anterior, ela nem tinha desconfiado.

Decidi fazer um exame de toque ainda pela manhã para saber "a que ponto chegamos". Quatro centímetros. "O seu colo parece um ovo frito, todo molinho". O bebê estava em boa posição, mas ainda alto. "Agora vamos descer. A gente não precisa fazer toque toda hora pra avaliar a evolução. Vamos escutar o coração dela e conforme ele for descendo, nós sabemos que você está evoluindo".

Avisei a fisioterapeuta e a instrutora de pilates para cancelar meus horários à tarde. A minha expectativa era de parir lá pelas 16h. Fizemos o doppler quase que de hora em hora - em nenhum momento eu fui interrompida em situação de intimidade ou de descanso. Iluminação, temperatura e a presença e ausência de pessoas no quarto estavam a meu critério, afinal, eu estava em casa.

As contrações já vinham em sentido diferente. No primeiro dia, a pressão era para fora, abrindo a pelve (como nos exercícios com o epi-no, um aparelho utilizado na fisioterapia pélvica - por isso eu já conhecia a sensação). Agora, a pressão era para baixo, encaixando o bebê. A manhã passou mais tranquila. As contrações eram muito frequentes, mas não tão intensas - e eu não tinha a menor noção disso. Você não sabe que está doendo pouco até sentir uma dor mais forte.

Almocei bem - interrompendo para respirar durante as contrações. A doula avisou que o meu obstetra estava de plantão no hospital durante a tarde e queria me examinar nesse período. Eu pensei "tudo bem, acho que até o fim da tarde já vamos ter um bebê!" Depois do almoço consegui descansar quase uma hora, antes de uma nova rodada de contrações.

Depois do descanso, as contrações vieram mais fortes, e aí eu já vocalizava alto. Quase todo o tempo eu estava no quarto só com o marido. A doula entrava para verificar a evolução, respeitosamente, ou quando eu chamava. Sempre tinha algumas contrações nesse intervalo e ela aproveitava para ensinar o marido o que fazer pra me ajudar.

Nessa altura, eu não falava mais com o obstetra, pq ela estava em contato direto com ele, mandando todas as informações. Eu também parei de contar contrações, só queria que o tempo passasse e o trabalho de parto terminasse. Pense num dia comprido...

A doula lembrou que o obstetra queria me examinar. Combinamos de ir às 17h30 para o hospital. Cada movimento era uma contração. No carro, no estacionamento, na recepção, no acolhimento, na maca... Eu imaginava estar com uns 7cm de dilatação e já pensava se a essa altura seria melhor voltar para casa ou ficar de uma vez. O obstetra fez o toque e.. "maravilha! Está com quatro centímetros, o colo todo apagado, bebê totalmente encaixado! Só terminar essa dilatação que ela nasce. Vai pra casa, caminha, rebola, senta na bola de pilates... daqui a pouco a gente se vê".

Eu fiquei como? Frustradíssima! 🤣🤣🤣🤣🤣 O dia inteiro trabalhando pra dilatar nada?! Fomos pro cardiotoco. Os batimentos fetais estavam maravilhosos, como sempre. Na verdade a Maria Elisa estava dormindo, e olha que só durante o exame foram cinco contrações. No final, o obstetra fez um barulho pra acordar o neném, ela mexeu um pouquinho, mas não se incomodou, e provavelmente dormiu de novo 🤣

Voltamos pra casa e a doula explicou "Parece que não aconteceu nada, mas aconteceu muita coisa. O bebê já desceu bastante, já está todo encaixado. Agora a gente precisa entrar naquela última fase, quando o bicho vai pegar. Você precisa descansar pra chegar lá." Foi muito importante ela ter dito isso porque a frustração foi embora e eu voltei para casa tranquila.

Consegui dormir 45 minutos e acordei com uma dor filha da puta no meio das contrações. Parecia que era uma contração e um soco no cóccix ao mesmo tempo. Eu me sentia estrangulada. A estratégia de respiração não estava funcionando mais. Comecei a caminhar e percebi que estava com um sangramento maior.

Falei com a doula que estava acontecendo "alguma coisa errada", porque eu não estava conseguindo mais respirar nas contrações. Nada mais funcionava. Nem chuveiro, nem massagem, nem abraço, nem beijo... "Tentei sentar na bola e foi horrível, parecia que eu estava sentando numa vassoura". Ela comemorou! Diante da minha expressão confusa, explicou "Essa é uma contração de expulsão. Lembra quando eu falei que o bicho iria pegar? Chegamos naquela parte. Você pode fazer força se você sentir vontade. Essa vassoura é a cabeça do bebê 😅"

Marido ligou para o obstetra e todo mundo se preparou calmamente para ir ao hospital. Fomos bem devagarinho, enquanto eu sentia cada rachadura do asfalto e xingava o secretário de obras mentalmente.

Entramos no hospital, a doula e o marido me indicaram uma cadeira, mas eu sabia que uma contração estava chegando. O obstetra chegou imediatamente após, bem na hora em que começou a contração. Ele já preparou a maca e me examinou. Perguntou onde eu queria ter o bebê. Eu tava "Sei lá?! 🤷🏽‍♀"

*nessa parte o relato não é muito confiável, as coisas podem ter acontecido em ordem diferente, eu não estava prestando atenção hahahaha*
Falou com a enfermeira: "A sala da banheira tá ocupada? Não ta, né..eles não usam aqui... Vamos pra banheira?" Concordei e a doula me guiou. O obstetra foi se trocar e pedir minha internação, o marido ficou com as minhas coisas e foi lidar com os papéis da entrada. A equipe do hospital foi preparar a sala da banheira enquanto a doula me acompanhava e me segurava nas contrações.

O obstetra ligou a banheira que foi enchendo rapidinho, a iluminação na sala estava perfeita, mas eu estava com frio. Logo após uma contração eu falei com a doula "Eu acho que ela já está aqui!" Ela respondeu "Quer por a mão? Pode colocar a mão pra você sentir!" E estava lá mesmo! Um negócio meio redondo, meio pontudo, que com certeza não estava ali antes 🤣 Só tinha nós duas na sala, sei lá o que todo mundo tava fazendo. A cada duas palavras que eu dizia, três eram "Cadê meu marido?". Não que eu tenha dito muitas palavras, na verdade eu só vocalizava...

Senti a água morna da banheira e entrei porque estava com frio e a água estava uma delíciaaaaaaaa. Eu fazia força na água e a doula pescava os cocozinhos (faz parte). Chegou o obstetra, perguntando como a gente estava. Eu não falava mais nada com ninguém, só vocalizava e lembrava da fisioterapia e dos nossos ensaios de parto. Concentração total entre "distender o abdômen" e "essa menina vai nascer e o pai não chega".

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Enquanto isso, o marido esperava a recepção se resolver enquanto as duas recepcionistas discutiam entre si e com a mãe de um paciente e ninguém se agilizava para dar entrada na minha internação, sem os quais ele não poderia entrar.
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Ele chegou no meio de uma contração, quando terminou vi ele na minha frente e já disse: "você demorou pra chegar!" "Depois eu te conto.." já veio a próxima contração e eu já estava completamente focada. Agora já pode nascer! Em um puxo só saiu a cabeça. 21h49. De cócoras na água e notei que ela tava saindo pra trás e eu não conseguia agarrar ela desse jeito, mas não dava pra mudar de posição, aquilo estava acontecendo pra valer, não tinha como parar. No próximo puxo estourou a bolsa. No próximo saiu tudo. 21h52.

O obstetra tinha aparado o bebê e me entregou, e eu fiquei olhando assim 😍😵😍😵😍😵😍😵😍😵 e mostrei pro marido, beijei, cheirei 😍😍😍😍

Alguém me ajudou a sair da banheira, eu já tirei a teta e deixei ela procurando a sucção. Eu acho que eu sentei numa escada (?), o obstetra me convidou a sentir a pulsação do cordão, bem forte. Ficamos ali alguns minutinhos, logo o cordão esvaziou e ficou branquinho. Clampeou e o pai cortou.

O obstetra me perguntou se o bebê poderia ir para a rotina pediátrica enquanto ele me avaliava, e eu decidi que sim. Entreguei o bebê pro papai e fui para uma maca.

A enfermeira fez a coleta do sangue umbilical (meu Rh é negativo) do que ficou ainda no cordão que estava com a placenta - quase não deu meio tubinho de coleta.

O obstetra examinou o canal de parto, tudo íntegro, sem laceração, tudo maravilhoso, me deu os parabéns. Eu respondi que a minha fisioterapeuta estava de parabéns, porque a gente tinha ensaiado o parto 🤣 "Mas você lembra de fazer o que ensaiou numa hora dessas?" "É muita concentração! 😌" 

Depois de uma massagem, senti vontade de empurrar e fui distendendo o abdome. "Isso também foi ela quem me ensinou!" A placenta saiu inteira, de uma vez só, com um pedaço da bolsa. A gente brincou sobre servir a placenta já que ninguém tinha jantado e ele me deixou com a doula e foi ver o bebê.

A enfermeira chegou com a maca para me levar pra sala de observação, que é um protocolo do hospital: 2 horas na sala de observação, sem acompanhante (😒). Eu consegui ficar com a minha doula que disfarçadamente se aboletou ali e ninguém mandou sair. Ela me ajudou a me arrumar na maca, depois me ajudou a sentar, deitar de novo, sentar apoiada... 

Aí chegou o bebê e ela me ajudou com a primeira mamada. Com o bebê mamando em um seio, ela ordenhava o outro gota a gota em uma seringa, pra não correr o risco de quererem complementar com fórmula. Foram 5ml de colostro que ela também me ensinou a dar na seringa, além do que a criança tinha sugado no seio.

Então fomos liberadas para o quarto, mas o marido precisava assinar para pegar a chave.

CADÊ O MARIDO?

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Minutos antes, marido diz pra minha mãe: Eu acho que elas vão demorar, tem um protocolo de observação de duas horas. É melhor a gente comer alguma coisa.
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Era meia-noite, não achavam nem o marido, nem minha mãe que tava com ele. Pedi pra doula tentar ligar pro celular dele e não atendia. A enfermeira ligava em todas as recepções do hospital perguntando se tinha algum parente meu. A doula perguntou se ela poderia resolver a questão da chave, e foi.

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No meio do caminho, o marido vê as ligações perdidas da doula e volta pro hospital.
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Um tempinho depois, voltaram para nos buscar, já tinham encontrado minha família 🤣

Eles estavam me esperando no quarto. As enfermeiras quiseram dar banho no neném, eu não deixei. Aí eu fui tomar banho e minha mãe falou que apareceu uma enfermeira brava com um termo pra assinar por causa do banho da criança 🤣

Trocamos a fralda descartável do hospital que já tinha um cocozão pela fraldinha de pano. Era umas 3h quando todo mundo dormiu - neném, mamãe e papai - direto até de manhã, quando ela chorou pela primeira vez.

E foi assim que aconteceu a coisa mais linda da minha vida 😍😍😍😍😍

A pergunta que deveria calar

Todos conhecem as perguntas que aparecem toda vez que a sociedade acha que a sua vida não está seguindo o script. E as namoradinhas? Já terminou a faculdade? Quando é que vão casar? Já passou no concurso? E quando vão encomendar o bebê? Não vão querer mais um? Ainda não compraram uma casa? Quando vão trocar de carro?

"O Brasil quer saber"... muito embora não seja da conta de ninguém. Às vezes é uma pergunta inofensiva, às vezes só uma forma de puxar assunto, mas não existem formas menos invasivas de se jogar conversa fora? Quer dizer, podemos falar de tanta coisa - política, futebol, novela, música, comida, produtos de limpeza, cores de esmalte, até do clima... porque falar logo da intimidade do outro?


Dentre todas as perguntas, existe uma que é a mais cruel. Uma pergunta que nunca deveria ser feita, por ninguém. É a pior de todas, porque realmente não é da conta de ninguém... mais do que isso, é íntima demais pra que as pessoas achem que podem fazer disso um assunto para a conversa. Ninguém pergunta se você já fez sexo hoje, então porque perguntam por que você não tem filhos?

Todos os casais que não têm filhos têm uma razão para isso. Ainda que a razão seja tão simples quanto "ainda não pensamos nisso", "não queremos" ou "mas o casamento foi semana passada...". Existem outros motivos, alguns mais complexos, outros mais sensíveis... qualquer que seja o motivo, não há um cenário sequer em que a pergunta melhora as coisas de qualquer modo.

O casal não quer ter filhos. 
Talvez seja novidade para você, mas não há nenhuma lei que obrigue as pessoas a terem filhos. De fato, se existe algo totalmente ineficaz para convencer um casal a ter filhos, é a insistência das pessoas que não vão ajudar a fazer, criar, pagar as contas e acudir os choros da madrugada. Não é apenas um desperdício de energia, mas uma forma rápida de fazer com que o casal se afaste de você. Se você não é íntimo o bastante para conhecer e respeitar o desejo do casal, não tem intimidade suficiente para fazer essa pergunta.

O casal não quer ter filhos agora.
E não há nada que ninguém possa fazer a respeito. Ninguém sente vontade de engravidar porque os outros acham que agora é um bom momento. Não é assim que funciona. Ninguém manda no tempo dos outros, mesmo porque, ninguém conhece a vida de um casal tão bem assim pra achar que sabe quando é o melhor momento. Por outro lado, se a sua intenção for afastar um casal de amigos meio chato, essa pode ser uma boa tática. Com certeza eles passarão a te evitar se você ficar perguntando quando vêm os bebês.

O casal está tentando ter filhos.
Ninguém tem a obrigação de contar que está tentando engravidar. Mesmo porque ninguém mais precisa dessa informação. Essa tarefa é para ser cumprida na intimidade, e ninguém deve interferir. Parece até ridículo falar isso, mas muita gente - até mesmo, e principalmente, a família - começa a pedir contas quando sabe que o casal está tentando. A pressão já é grande quando ninguém sabe, e para quem pergunta, o risco de se colocar em uma situação realmente embaraçosa é muito grande.

O casal não está conseguindo ter filhos.
E você está lá, tocando na ferida, remexendo naquele pedacinho tão sensível da vida das pessoas que elas ainda nem conseguiram confidenciar. Mesmo que não seja nada demais, ainda que seja só por falta de sorte, ninguém quer falar sobre essa frustração quando perguntam "E aí, quando vem o bebê?".

O casal não pode ter filhos.
Pensa numa situação chata. É a saia justa em que ninguém quer se meter. "Vão ter filhos logo?" "Não, a gente não pode". Pra que passar vergonha à toa, perguntando sobre coisas que não te dizem respeito? É melhor ficar quieto.

Trabalho, tempo e filhos

Se tem uma coisa que me deixa morrendo de dó é a creche em período integral. Os pais se privam da convivência com os filhos para prover o seu sustento. A criança acaba passando um terço do seu dia em uma rotina pré-formatada, pouco individualizada. Porque a criança tanto tempo na instituição, a escola assumindo obrigações que são da família: "ajudando a criar". 

Criança não precisa de dinheiro, de coisas, de presentes, de festas de aniversário super produzidas. Criança precisa é de tempo. Precisa conviver com gente, criar vínculos com os pais, receber estímulos, ter experiências.


Infelizmente, esse modelo existe para responder a uma realidade que corresponde à maioria dos adultos brasileiros hoje. Nós nos acostumamos com esse formato de trabalho em que as pessoas saem de suas casas e passam oito horas do seu dia tra-ba-lhan-do, como se esse fosse o único modo de se viver. E é assim que a creche em período integral deixa de ser um absurdo e passa a ser a coisa mais óbvia do mundo. Os pais precisam trabalhar oito horas por dia. Logo, a criança precisa passar oito horas... onde? Na creche.

Precisa? Qual é o ganho de produtividade em suas oito horas de trabalho, imaginando um cenário alternativo em que você trabalhasse apenas seis horas? E você sabia que uma jornada de seis horas corridas corresponde a um período integral, do mesmo jeito que as oito horas com intervalo pro almoço?

Se quisermos ter tempo para ter filhos, precisamos buscar alternativas à jornada fixa de quarenta horas fora de casa. Trabalhar menos, trabalhar em casa, trabalhar em horários alternativos, trabalhar em horários flexíveis. Não estou cogitando não trabalhar porque essa não é uma realidade pra mim (te contar uma coisa: eu gosto de trabalhar), mas talvez seja uma opção viável pra você?

Mas é estranho. É difícil tirar a formatação de fábrica da cabeça das pessoas. Elas olham torto, e perguntam "por que SÓ seis horas?" como se isso o tornasse um vagabundo. Elas veem quem "não trabalha" como um parasita na sociedade, se aproveitando do trabalho alheio. Eu trabalho em home office há anos, e às vezes ainda é difícil para as pessoas entenderem que estar em casa não significa estar desocupada porque é aqui que eu trabalho.

Não é como se não houvesse escolha. Se nesse momento você se vê sem opções (sério? sério mesmo?), alguma escolha que você fez lá atrás o colocou nessa posição. Ou talvez você apenas não está enxergando direito. OU você decidiu que algumas coisas são mais importantes e isso, minha gente, também é uma escolha.

Se eu trabalho três turnos para manter um padrão de vida que eu considero ideal porque a minha profissão não tem uma remuneração muito bacana, posso dizer que não há escolhas aqui? Quem escolhe a carreira, quem determina o padrão de vida, quem decide que é melhor trabalhar manhã, tarde e noite do que viver em um padrão inferior?

Atualmente nós (marido e eu) trabalhamos, entre o trabalho de hoje e a construção de projetos para médio e longo prazo, de oito a doze horas por dia cada um, frequentemente em fins de semana e feriados. Não temos filhos e queremos ter tempo para os filhos que queremos ter.

Escolhemos investir nosso tempo hoje, para colher amanhã. Nosso objetivo é conseguir trabalhar entre quatro e seis horas diárias cada um. Sim, cada um, em horários alternativos, porque criança merece ter tempo de qualidade com pai e mãe, da mesma forma que pais e mães têm idêntico direito a desfrutar da convivência com os filhos e de ser um casal. Não existe piloto e co-piloto nesse trabalho, somos corresponsáveis pelo lar.

Eu abro mão de um padrão de vida luxuoso, abro mão de responder imediatamente aos instintos maternos, abro mão de estabilidade e carteira assinada em nome de algo que pra mim vale muito mais: qualidade de vida em família.

Como acabar com a cultura do estupro

Num mundo em que uma mulher é estuprada a cada 11 minutos, não há uma mulher que você conheça que não tenha sido assediada. Por que isso acontece tanto? Porque o estupro de uma menina por trinta homens não começa com trinta homens saindo de suas casas decididos a fazer sexo com a mesma menina. Começa com as pequenas atitudes, coisas que, inclusive, são consideradas normais, mas que criam isso que chamamos "cultura do estupro". Porque se algo acontece com a mesma frequência que passa um ônibus na rua, não é mais exceção, é algo que faz parte da cultura, é algo que já está normalizado.


Como adultos, somos responsáveis por fazer adultos melhores para as próximas gerações. Só se muda cultura com uma cultura diferente. Pequenos passos como estes: