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Hermenêutica e o Desafio da Educação Cristã (Série Essencial Invisible College)

Esta é uma série de textos escritos para o curso de Teologia Essencial do Invisible College. O curso consiste no estudo de um tema da teologia por mês com leitura de um livro, materiais complementares em texto, áudio e vídeo, um fórum de perguntas e respostas com um convidado, uma sessão de tutoria com um dos professores em um grupo pequeno e a entrega de um texto (resenha ou artigo). O texto a seguir foi escrito em Janeiro de 2021 para o tema Hermenêutica Bíblica.




A Bíblia é a Palavra de Deus, a revelação divina para a humanidade. É confortador saber que o Espírito Santo é o intérprete fundamental, comunicando por meio do texto bíblico a mensagem de salvação em linguagem acessível a literatos e iletrados. No entanto, a falta de conhecimento pode fazer perecer aqueles que tentam abordar o texto bíblico de forma equivocada, ainda que com “as melhores intenções”.

A dificuldade de leitura e compreensão de texto na população é um dos obstáculos que se impõem entre o evangélico brasileiro e as Escrituras Sagradas. Nos últimos séculos, muito se avançou no letramento dos leigos – uma tarefa encabeçada pela Igreja e adotada pela sociedade e pelo Estado na civilização ocidental. No entanto, o texto bíblico traz peculiaridades que devem ser observadas para a sua melhor interpretação. A lacuna da hermenêutica bíblica precisa ser preenchida pela Educação Cristã.

Acesso às Escrituras

O acesso às Escrituras Sagradas tem movido a Igreja nos últimos séculos a diversos avanços sociais, linguísticos e tecnológicos. O objetivo de levar a Palavra de Deus a todo povo, língua e nação, crendo, ainda, no sacerdócio universal de todo cristão, tem sido facilitado pela sistematização de idiomas escritos, a criação da imprensa, a abertura de escolas e alfabetização em massa da população.

No entanto, como reflete ENKVIST, “Pensar que a leitura é apenas uma habilidade é um erro. O importante não é a leitura em si, mas a compreensão da leitura que se baseia na compreensão do mundo.” Quão disponível está o texto bíblico, se ele pode ser lido, mas não compreendido? Aquele que lê e não interpreta, realmente leu?

O Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) de 2018 relata que 13% da população brasileira com Ensino Médio completo corresponde a analfabetos funcionais, e apenas 34% das pessoas que chegaram ao nível universitário podem ser consideradas letradas proficientes, isto é, “pessoas cujas habilidades não mais impõem restrições para compreender e interpretar textos em situações usuais”.

Uma pesquisa Datafolha publicada em 13 de janeiro de 2020 distribui a escolaridade da população evangélica brasileira em 35% com Nível Fundamental, 49% em Nível Médio e 15% no Nível Superior. Os dados confirmam o que a evidência empírica tem sinalizado: o evangélico brasileiro tem dificuldades para ler e interpretar as Escrituras, e isso se reflete na sua vida devocional, no evangelismo e no serviço cristão.

Entendes o que lês?

O estudo da Palavra de Deus é atividade coletiva e individual, que não encontra limites etários, sociais ou acadêmicos. São diversas as passagens bíblicas em que o ensino é ordenado: em casa, aos filhos; nas ruas; nos templos; no discipulado.

Nesta jornada, o educador cristão, seja na função de pregador ou mestre, professor de escola bíblica ou de seminário, discipulador ou líder de pequeno grupo, precisa estar consciente da relevância da sua tarefa e esmerar-se ao estudar e interpretar as Escrituras para o seu público-alvo.

A disciplina do estudo nos transforma pela renovação da nossa mente. O zelo do professor em aprofundar-se no conhecimento do objeto de estudo bíblico é uma manifestação do zelo pelas Escrituras, a fim de transmitir a Palavra de Deus tal como Ele a revelou.

O trabalho educativo crucial para a Igreja contemporânea está no desenvolvimento das aptidões para o estudo individual e dirigido. Uma geração de adultos que mal lê, mal interpreta e tem pouco espaço para desenvolver o pensamento no âmbito eclesiástico terá grandes dificuldades em instituir uma rotina de devoção e estudo bíblico individual, e maiores ainda ao assumir posições de liderança e instrução, seja em casa, no discipulado individual, ou em ministério eclesiástico.

O incentivo à leitura bíblica não pode ignorar o fato de que muitos cristãos não entendem, ou entendem mal, aquilo que leem. Para este exercício de devoção individual, não basta ter acesso a alguém que lhe explique as Escrituras. É importante que os cristãos desenvolvam as ferramentas adequadas para fazer o seu próprio exercício hermenêutico com a autonomia e desenvoltura que se espera de cristãos maduros.

Além de ensinar a partir de uma interpretação adequada das Escrituras, o educador cristão deve ter o cuidado de transmitir aos alunos os princípios que lhes permitirão acessar o texto bíblico, promovendo a autonomia para o estudo bíblico e para o exercício do ministério cristão por cada crente.

Hermenêutica para não leitores

O estudo da Hermenêutica é útil para todos os cristãos, mas nem todos terão repertório intelectual para entender a necessidade do estudo, ou mesmo para absorver o seu conteúdo no campo filosófico, dedicando tempo ao estudo da hermenêutica enquanto doutrina abstrata.

Disso não se depreende que alguns, por sua juventude ou imaturidade intelectual, devam ou possam ser privados do estudo da hermenêutica, mas que este será incutido na forma de princípios, na prática do estudo bíblico, introduzindo hábitos de leitura que remetem às boas práticas da hermenêutica bíblica.

Os princípios de interpretação bíblica são especialmente úteis aos que leem a Palavra de Deus, mas também são válidos para os que, por qualquer impedimento, apenas ouvem a leitura de terceiros, pois a comunicação oral não prescinde de interpretação. Essa situação exige especial cuidado do leitor em manter a fidelidade do texto.

É comum que as primeiras porções da Bíblia apresentadas ao leitor ou ouvinte sejam narrativas. Muitas crianças são familiarizadas com “a história de Adão e Eva”, “Noé e sua arca”, “Davi e Golias”, enquanto outros que iniciam a vida com Cristo mais tarde tendem a começar o estudo da Bíblia pelos evangelhos.

Para muitos jovens que congregam em família, as narrativas contadas por seus pais, professores de escola bíblica, em músicas e filmes infantis serão a única versão da história bíblica que conhecerão por pelo menos uma década. O educador cristão precisa ter o cuidado para apresentar uma porção suficiente da história bíblica, sem acrescentar adornos ou retirar detalhes que descaracterizem a narrativa.

É crucial que o leitor ou ouvinte entenda que Deus é o protagonista da Bíblia e de todas as suas histórias. Esse princípio deve ser observado mesmo em resumos e histórias curtas, não apenas observando se Deus está presente na narrativa, mas dando destaque à intervenção divina como ponto central da história.

O uso de material extraído e adaptado das Escrituras pode ser um recurso didático interessante, mas somente quando amparado pelo amplo conhecimento do educador a respeito do texto original e da tradição cristã associada à interpretação de cada texto. O conhecimento do texto bíblico na fonte é imprescindível para evitar que se perpetuem mitos e alegorias inseridos pela tradição oral, sem respaldo bíblico.

O ensino da Hermenêutica

O estudo bíblico cada vez mais se consolida como necessidade e interesse de todos os cristãos, mas o estudo da hermenêutica ainda soa como uma exigência técnica a ser estudada nos seminários e institutos bíblicos, uma matéria complicada para os mais simples. Neste sentido, é dever do educador cristão aculturar os seus educandos para a necessidade e a própria possibilidade do estudo da hermenêutica.

Não obstante, o ensino da hermenêutica pode ser inserido no estudo bíblico, tendo o cuidado de apresentar a interpretação adequada do texto bíblico e de reproduzir o trabalho exegético no texto em conjunto com o estudante, apresentando a interpretação bíblica na prática.

A hermenêutica bíblica não é tema restrito aos especialistas, mas uma importante ferramenta para a vida devocional, discipular e ministerial do cristão, independente do seu nível de maturidade ou letramento, cabendo à Educação Cristã ensinar a interpretação bíblica, traduzindo os conceitos hermenêuticos conforme a capacidade e necessidade dos educandos.

Referências Bibliográficas

50% DOS BRASILEIROS SÃO CATÓLICOS, 31%, EVANGÉLICOS E 10% NÃO TÊM RELIGIÃO, DIZ DATAFOLHA. G1, 2020. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/ noticia/2020/01/13/50percent-dos-brasileiros-sao-catolicos-31percent-evangelicos-e-10percent-nao-tem-religiao-diz-datafolha.ghtml Acesso em 27.01.2021.

AÇÃO EDUCATIVA; INSTITUTO PAULO MONTENEGRO. Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf): estudo especial sobre alfabetismo e mundo do trabalho. São Paulo: Ação Educativa; IPM, 2018. Disponível em: https://drive.google.com/file/d/1ez-6jrlrRRUm9JJ3MkwxEUffltjCTEI6/view Acesso em: 27.01.2021.

ENKVIST, Inger. Educação: guia para perplexos. Campinas (SP): Kirion, 2019.

FEE, Gordon D; STUART, Douglas. Entendes o que lês? : um guia para entender a Bíblia com auxílio da exegese e da hermenêutica. 3. ed. São Paulo: Vida Nova, 2011.

FOSTER, Richard. Celebração da disciplina: o caminho do crescimento espiritual. 2. ed. São Paulo: Vida, 2007.

GEORGE, Timothy. Teologia dos reformadores. 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 2017.

GORMAN, Michael J. Introdução à exegese bíblica. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017.

KAISER, Walter C; SILVA, Moisés. Introdução à hermenêutica bíblica. 3. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2014.

LYTHCOTT-HAIMS, Julie. Como criar um adulto. Rio de Janeiro: Bicicleta Amarela, 2016.

MONTESSORI, Maria. A descoberta da criança: pedagogia científica. Campinas (SP): Kirion, 2017.

TOUGH, Paul. Como as crianças aprendem. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2017.

TOUGH, Paul. Como ajudar as crianças a aprenderem. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2017.

WON, Paulo. E Deus falou na língua dos homens: uma introdução à Bíblia. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2020.

A treta do Dia das Mães

O último grito politicamente correto é que não é certo comemorar o Dia das Mães. A problemática levantada nessa última semana teve vários lados. Gente que apoia o Dia das Mães e faz uma homenagem em cada rede social. Mas também teve gente que pregou a abolição desta data comercial que causa sofrimento a todo mundo que não tem mãe. Teve gente no meio do caminho, falando de Dia da Família e Dia de Quem Cuida de Mim. Parece que as coisas estão meio assim, tanto faz, que nem o dia da mãe da gente se respeita mais.


Uma amiga compartilhou uma situação complicada: a escola da mais velha comemora o Dia das Mães, mas a escola da mais nova, não. No domingo, a mais velha tinha um monte de lembrancinhas e presentinhos que fez em sala de aula, e a pequena, constrangida, foi arrumar pela casa alguns presentes para entregar. A solução, para alguns, é a abolição total do Dia das Mães. Ninguém mais faz, pronto.

Será? Parece aquela solução do dono da bola. Se o resultado não está legal, a gente acaba com o jogo. Ninguém mais pode brincar. É assim que crescem os adultos despreparados, incapazes de lidar com as frustrações e que só sabem jogar o jogo com as regras que eles inventaram.

Por falar em jogo, eu sempre odiei a dança das cadeiras. Quando criança eu odiaaaava essa brincadeira. Era muito frustrante, aquela bagunça, a correira, criança caindo em cima da outra, com cadeira e tudo, uma brutalidade. Eu só brincava disso se obrigada, e tratava de ser a primeira a sair do jogo. Na proposição das brincadeiras, eu sempre tentava fazer com que brincassem de outra coisa, mas nem sempre essa ideia era aceita. 

Seria diferente se eu tentasse impedir que os outros brincassem. Eu não gostava da brincadeira e fazia questão de não participar, mas privar os outros de algo que, para eles, era divertido, seria egoísmo. Pior que isso, seria não saber lidar com a diferença.

E olha só... não é justamente o pessoal do "Dia da Família" que gosta de exaltar as diferenças? Dá um nó na cabeça, você pode escolher o sabor de família que você quiser, menos o tradicional. Quem não gosta do tradicional não pode se contentar em ficar com o sabor pizza, colocaram na cabeça que quem elogia o sabor tradicional está, obviamente, falando mal de todos os outros sabores de biscoito família.

Não é necessariamente verdade. E ainda se fosse... todo mundo tem o direito de tecer os seus comentários, expor ideias, dizer que não gosta disso ou daquilo... Não é errado dizer que eu gostaria que todo mundo só fizesse o que me agrada. No fundo, é o desejo particular de cada um de nós, o nosso pequeno tirano interior fica todo faceiro. Mas a gente sabe que é só um desejo, e que na realidade a gente não pode, nem deve, obrigar ninguém a ser nada, só por causa dos meus desejos e preferências, sejam elas tradicionais ou diferentonas.

Sempre existiu criança sem mãe e/ou sem pai. Criança criada pelos avós, pelos tios, criança criada pelo Estado. Tirar o Dia das Mães da escola não faz com que ele desapareça da mídia, do shopping, da casa do vizinho... até mesmo na própria casa da criança, pode ser que uma tenha mãe e a outra não. Essa "solução inclusiva" não ensina a incluir de verdade, mas a editar o mundo, removendo tudo o que me deixa desconfortável. 

A experiência da vida real não tem um algoritmo personalizado para mostrar só o que se relaciona com a sua vida, e aprender que você não está no centro do mundo é importante também. As outras pessoas também têm uma existência tão importante quanto a sua, e nós podemos lamentar as faltas uns dos outros e nos alegrar com as alegrias uns dos outros. Esse aprendizado só é possível na alteridade, na diferença, no ambiente heterogêneo.

Em vez de evitar o assunto, está aí uma oportunidade ótima para trabalhar a frustração e a saudade, celebrar as mães que se foram e as que virão, homenagear pessoas que exercem a figura materna reforçando e fortalecendo esse vínculo, destacar e apresentar às crianças as diferenças entre as famílias em que o papel de mãe é exercido por outra pessoa. 

É assim que o dia das mães para de doer.

Feliz Dia das Mães!

Guia AnnieEscreve #1


Pooois é, mudamos. Em vez daqueles links relacionados aos textos da temporada, agora todo sábado eu vou falar sobre o que aconteceu por aqui, o que eu li, ouvi, assisti, usei, participei.. dicas para curtir e também pra passar longe, porque a única vantagem de cair numa roubada é poder avisar os outros né?

Nessa temporada escrevi sobre meus lugares favoritos em Curitiba e mostrei meu cabelo curto. No domingo conversamos sobre a armadilha que é a busca da felicidade - parece que ainda precisamos definir essa palavra. A primeira treta do ano é bem didática para quem não consegue entender como esse povo dos direitos humanos fica aí defendendo bandido. Pode ser difícil mudar de ideia de uma hora para a outra, mas pequenos passos também levam a melhores destinos.

Eu estou ouvindo muito Pedro Valença, que já apelidei de Mark Schultz brasileiro (entendedores entenderão). Ouvi tanto que parece que as músicas não saem mais da minha cabeça! Ele lançou há pouco tempo seu primeiro álbum Pode Ser, mas já participava como cantor e compositor do Vocal Livre. O moço também tem um canal no youtube com alguns vídeos ensinando a tocar as músicas dele no violão.

Por falar em música, eu assisti a terceira temporada de Mozart in the jungle. É uma série da Amazon que gira em torno da Orquestra Sinfônica de Nova York e seus músicos. Tem o Gael Garcia Bernal interpretando o protagonista, o maestro Rodrigo que chega para substituir o antigo maestro, ainda insatisfeito com a aposentadoria. Tem uma jovem oboista que sonha também fazer parte dessa orquestra. No meio de tudo isso, muitos personagens interessantes, caricatos, malucos (músicos, né?) e, é claro, uma trilha sonora maravilhosa. Cada temproada tem apenas dez episódios de trinta minutos. A próxima só em dezembro. Dá tempo de ficar em dia até lá.

Uma das minhas metas este ano é obter fluência no francês, por isso estou tentando incluir o idioma no meu dia-a-dia, principalmente com músicas, filmes... Assisti Paris, te amo, que na verdade não é bem um longa, mas vários curtas seguidos, cada um retratando um amor nos diferentes bairros da capital francesa. Tem curtas bons, ótimos e ruins. Na minha opinião, o melhor de todos é o último. Pela média geral, não vale a pena a menos que você tenha um amor especial pela cidade (não tenho) ou, assim como eu, quiser usar o filme para aprender francês.

Estou estudando francês (e alemão!) no Duolingo. Já usava essa plataforma antes, (inclusive já falamos dela por aqui!), mas agora estou usando com disciplina e consistência. Três semanas estudando todos os dias um pouquinho. Outro compromisso que eu fiz é de praticar exercícios físicos todos os dias. Sim, quando eu falo todos os dias inclui sábados, domingos, feriados... Pode ser vinte minutos de blogilates, uma caminhada, uma hora de dança, o importante é se mexer.

Por falar em bons hábitos, esse ano já terminei a leitura de um livro, e agora estou encarando duas leituras mais pesadas. Educação financeira é uma leitura ótima para quem tem filhos ou pretende ter um dia. A nossa relação com o dinheiro se constrói desde cedo. É interessante observar como o comportamento dos nossos pais nos influenciou e como o nosso comportamento se espelha nos pequenos. Com atitudes simples e alguns hábitos mais arrojados podemos criar seres humanos mais responsáveis.

Ocupar e resistir

Há aproximadamente um mês as redes sociais discutiam loucamente sobre a Medida Provisória nº 746/16, que altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (entre outras coisas). Decidi não me manifestar naquele momento porque estava em jejum de tretas. Outros assuntos entraram em pauta, até que na semana passada os estudantes começaram a ocupar escolas no Paraná.


Os motivos da ocupação não estavam, nos primeiros dez dias, nas notícias jornalísticas, no site do movimento ou na página no Facebook. Recentemente, foram lançados alguns posts nas redes sociais, como esse vídeo, e a imagem oficial do movimento, dizendo que os protestos são contra a PEC 241 e a MP 746/2016.

Contra tudo isso que está aí



A falta de clareza sobre as reivindicações do movimento não é detectada apenas na internet. Quando eu conversei com alguns alunos de escolas ocupadas em Foz do Iguaçu, as respostas à pergunta do porquê variavam do "não sei" ao "porque tá tudo errado e querem fazer uma lei pra piorar".

Se você está pensando que eu não procurei alunos 'politizados', você está certo. Minha pesquisa não incluiu membros do grêmio estudantil, nem filiados a grupos ou partidos políticos. Conversei com alunos médios do Ensino Médio cujas escolas foram ocupadas, alguns engajados no movimento, outros não. O fato de que nenhum deles tinha uma resposta clara sobre os motivos da movimentação representa a desinformação da massa - os alunos "menos politizados" - sobre os motivos da ocupação.

A adolescência é aquela fase da vida em que o ser humano está em constante rebeldia. Um adolescente não precisa de um bom motivo para brigar. Não precisa nem de um motivo. E eu não digo isso para invalidar a briga de ninguém, ainda vamos discorrer sobre os motivos, apenas quero pontuar que muitas dessas pessoas não sabem a razão de tudo isso, e isso não importa nem para eles, nem para o movimento, desde que eles estejam lá "lutando pela educação".

Quem conta um conto...



As crianças no vídeo manifestam vários entendimentos equivocados sobre aquilo contra o que estão lutando. Falam de cortes orçamentários na saúde e educação, sobre a "burguesia" que matricula seus filhos no ensino privado enquanto bagunça a educação pública, o fim da educação física, da filosofia, da sociologia, das artes...

Antes de entrar numa briga, é preciso conhecer bem contra o que estamos lutando. É preciso conhecer e conhecer bem, isso significa ir além do "Fulano disse que" ou "eu li no Annie Escreve que" e começar a pensar com a própria cabeça, filtrando o que você ouviu, viu e leu. Parar de julgar a mensagem por causa do mensageiro e procurar saber o que a mensagem realmente significa.

É fato que o impeachment deixou muitos descontentes, mas desejar que as coisas deem errado porque a sua vontade foi confrontada é sinal de imaturidade. Distorcer todos os fatos para fazer algo ou alguém parecer pior apenas faz transparecer a mediocridade de quem não consegue debater com honestidade.

Enquanto a panfletagem divulga que a reforma na educação visa formar alunos alienados para trabalhar docilmente para os grandes capitalistas, o texto legislativo diz: "Os currículos do ensino médio deverão considerar a formação integral do aluno, de maneira a adotar um trabalho voltado para a construção de seu projeto de vida e para a sua formação nos aspectos cognitivos e socioemocionais".

A revogação do inciso que incluía a Filosofia e a Sociologia no currículo deixou tanta gente desbaratinada que nem se atentaram que essas matérias fazem parte das ciências humanas, uma das áreas de conhecimento do currículo básico do Ensino Médio.

Os estudantes reivindicam serem ouvidos para a construção da reforma educacional, mas parecem desconhecer que a Base Nacional Comum Curricular está neste exato momento aberta a contribuições de toda a comunidade, em audiências públicas e pelo site, onde também é possível visualizar todas as propostas e opinar sobre elas.

Quem quiser protestar contra os governantes, contra a PEC ou contra a Reforma é totalmente livre para fazê-lo. Isso faz parte da democracia. Você não precisa inventar desculpas ou distorcer os motivos da sua luta. Se você não gosta do Temer porque acha que ele tem pacto com o demônio, se quer o Richa fora porque nunca foi com a cara dele, bom, ninguém é obrigado a gostar. Não precisa inventar ou distorcer o que diz uma lei quando ela já é ruim o suficiente para ser combatida pelo que ela é. O problema é dizer que você é contra coisas que você nem conhece. É como as mães sempre dizem: "você não pode dizer que não gosta se você nem sabe o que é".

Ninguém faz a minha cabeça



Essa era uma das minhas frases favoritas na adolescência, especialmente porque toda vez que eu aparecia com alguma ideia diferente, meus pais diziam que alguém tinha feito a minha cabeça. Hoje eu sei que muito embora um adolescente seja completamente capaz de pensar e tirar conclusões particulares e honestas sobre os assuntos da vida (quando não está com preguiça) , ainda é muito manipulável - eu não achava isso quando era adolescente, mas hoje eu sei.

Os adolescentes do vídeo fazem questão de destacar que o movimento não teve a influência de nenhum professor, que tudo o que eles fizeram partiu da ideia dos próprios alunos. Eu sei o que eles querem dizer com isso - ninguém faz a minha cabeça. Dizer que não foi influenciado por nenhum professor, no entanto, é uma ideia bem ingênua.

Somos todos influenciados - de forma aderente ou repelente - pelas pessoas de referência nas nossas vidas. Num momento político em que a militância da docência é mais escancarada do que nunca, é difícil dizer que o movimento não teve influência de professores, mesmo porque o movimento só traz benefícios à classe.

No Estado do Paraná, o governador fez um anúncio implicando que possivelmente, no futuro, deixaria de cumprir o acordo feito com os professores no fim da greve do ano passado. Quase que imediatamente, a APP anunciou assembleia e indicativo de greve a partir do dia 17 de outubro. Uma semana antes, as escolas começaram a ser ocupadas. Com as escolas ocupadas pelos alunos, os professores não podem entrar em greve... nem precisam.

Não importa aqui se a greve é legítima ou ilegítima, se tem motivos justos ou não. O fato é que o estado de greve é mantido, mas a responsabilidade pela paralisação não é da categoria, é dos próprios alunos. Enquanto isso, os profes mais legais vão para as escolas de forma solidária dar aulão preparatório para o ENEM apenas para os alunos realmente interessados. Eles doam as aulas enquanto são pagos para dar aulas. Quem não quer, não é obrigado a assistir. Só vi vantagens.

Para quê, paraguaio?



Vista sob esse ângulo, a ocupação das escolas parece uma ótima ideia. Todas as escolas deveriam ser ocupadas. A comunidade se envolve mais com o ambiente escolar. Os alunos se tornam mais colaborativos, organizados, cooperativos - quem não está disposto a isso fica em casa. Os professores podem dar suas aulas com tranquilidade. O tempo de estudo aumenta, bem como a sua abrangência - não são oferecidas apenas aulas de português, matemática e ciências, mas também direitos humanos, ioga, desenho, programação, inglês, francês, fotografia e palestras diversas.

Isso beneficia um grupo de alunos que consegue tirar proveito desse sistema, mas prejudica todos os outros que não têm maturidade para tomar a decisão de voluntariamente ir pra escola e aprender, ou mesmo de estudar em casa. Sabe aquele aluno que se não tiver lista de presença ele não vai, se não vale ponto ele não faz, se não cai na prova ele nem ouve? Se esse aluno existe aos montes no ensino superior, imagina quantos são na educação básica.

A maturidade vem quando começamos a fazer ações com propósito, e é atingida quando nossas ações e nossos propósitos estão alinhados. Ocupar escolas é tão eficaz quanto bater panelas na sacada ou fazer a dança da chuva. O pior é que, se o resultado almejado acaba acontecendo, todo mundo pensa que deu certo e se sente herói.

Enquanto isso, Beto Richa ajeita o topete, Michel Temer viaja pela Ásia, nada mudou na cabeça dos governantes. Estamos em um cenário infeliz, em que o presidente ou o governador não se preocupam mais nem com a própria imagem. Nada do que eles façam ou deixem de fazer nesse momento é capaz de piorar a sua impopularidade. Se eles forem presos ou cassados, podem até ganhar a simpatia de alguns. Enquanto isso, o Enem está chegando... Então, para quê?

Espírito Olímpico & Meritocracia

Rebeca Andrade vivia em Guarulhos com a mãe, empregada doméstica, e seus sete irmãos. Muitas vezes não tinha dinheiro para pagar a passagem para os treinos. Mesmo com todas as dificuldades, destacou-se pelo seu talento e esforço. Aos 13 anos, ganhou o Troféu Brasil de Ginástica Artística. Em destaque, passou a treinar no Rio de Janeiro, longe da família, mas com muita dedicação. Integrando a seleção brasileira, foi a melhor ginasta da equipe olímpica do Brasil. Ela ainda não ganhou nenhuma medalha, mas conquistou muita gente com seu lindo solo ao som de Beyoncé.

Yusra Mardini jogou pelo Time dos Refugiados. Ela ficou conhecida pelo que fez antes das Olimpíadas: nadou por mais de três horas, junto com três outras pessoas, puxando, em mar aberto, o barco em que estava com outras vinte pessoas e que começou a afundar meia hora depois da partida. Nas Olimpíadas, ficou entre as últimas na sua categoria. Na memória das pessoas, uma das primeiras a surgir quando se fala de natação.

Sarah Menezes entrou para a história ao ser a primeira judoca brasileira a conquistar uma medalha de ouro em Jogos Olímpicos. Conheceu o esporte aos nove anos, e por muito tempo sua rotina consistia conciliar dois treinos diários com as aulas e o tempo para fazer os deveres escolares. No Rio, deixou a competição nas quartas de final com uma lesão. Chorou largada no tatame, e nós choramos junto. No entanto, circunstância nenhuma no presente e no futuro seria capaz de mudar o fato de que, no ano de 2012, ela foi a melhor judoca do mundo em sua categoria.


O que rege as histórias dessas mulheres e de qualquer atleta é a meritocracia. Elas não chegaram a lugar algum porque pagaram o ingresso ou a mensalidade, nem por serem filhas, netas ou amigas de alguém. Seus feitos não se baseiam em heranças, privilégios ou cotas. Toda a sorte e talento do mundo não são suficientes para produzir resultados vencedores se não houver um compromisso pessoal. Elas venceram com suor e lágrimas, porque essa é a única forma de vencer.

Atletas que fizeram um compromisso com a vitória. Treinando duas vezes por dia, abrindo mão da sobremesa, esquecendo o que significa preguiça, decisões reafirmadas e levadas a sério ano após ano para obter o mérito. É a meritocracia que permite que a menina da favela se torne médica. Se o sobrenome, a conta bancária, o lugar onde ela mora ou a cor da sua pele fossem critérios, ela não conseguiria.

Superação, inspiração, excelência, determinação, coragem, esperança, fé, trabalho árduo. São valores necessários aos Jogos Olímpicos, são valores importantes para o brasileiro, são valores essenciais para a meritocracia.

Sim, é muito mais fácil e simples se dedicar a um esporte, uma arte, uma startup quado o arroz e feijão da família estão garantidos e não há boletos pra pagar. A questão aqui não é essa. Não se trata de comparar quem tem privilégios com quem não tem, mas de refletir sobre a possibilidade, ainda que difícil, de mudar o rumo da sua vida, em comparação a um momento (no tempo ou no espaço) em que isso seria absolutamente impensável.

Há quem critique a meritocracia porque o mérito parece estar mais distante de uns do que de outros, ou porque para uns é mais difícil do que para outros. É verdade, nem todos têm a mesma facilidade. Somos pessoas diferentes. Há quem tenha os melhores professores à sua disposição, há quem tenha crescido com o corpo ideal para desenvolver uma habilidade. No entanto, nenhum dos dois chegará a lugar algum se não houver compromisso e dedicação pessoal. Os melhores professores são inúteis para o aluno que não estuda. O melhor corpo que não é exercitado constantemente não se desenvolve e atrofia.

É claro que é mais difícil para quem precisa trabalhar oito horas por dia para sustentar o sonho ou para quem tem que escolher entre comer e pagar a passagem de ônibus. Mas difícil não quer dizer impossível. Em outras eras, seria impossível ao filho de artesão se tornar fidalgo, ao escravo se tornar doutor, ao plebeu se tornar rei. O conhecimento não mais está restrito às mãos e mentes dos mestres, nem o seu acesso disponível apenas àqueles que podem pagar. Pode ser difícil, como tudo o que vale a pena nessa vida. Não é impossível porque só depende de você. 

4 aplicativos para estudar em qualquer lugar

Quando descobrimos que o mundo poderia caber na palma das mãos, não desgrudamos mais dessa pecinha tecnológica que chamamos de celular. Foi inventado para falar com as pessoas, mas passou a ser usado para ouvir música, tirar fotos, acessar as redes sociais e tudo o que a internet oferece, assistir vídeos, se distrair com jogos...

Escolas, partidos e o pensamento crítico

Existem dois tipos de pessoas: as que afirmam a inexistência de doutrinação marxista na educação brasileira e as que não são marxistas. Foi mais ou menos assim que nasceu o movimento Escola Sem Partido. Começou como um movimento de estudantes, ganhou apoio e críticas Brasil afora, virou projeto de lei, e você está ouvindo muito mais sobre isso ultimamente porque o Senado colocou o assunto em consulta pública na semana passada.


Em primeiro lugar, cabe dizer que essa votação no site é apenas isso: uma consulta pública. Não é referendo, não é plebiscito, não tem força pra levantar ou derrubar o projeto, é só pra você manifestar a sua opinião. E se você acha que esse tipo de manifestação tem poder de mudar a cabeça dos legisladores, quero lembrar que os brasileiros foram às urnas votar oficialmente contra o Estatuto do Desarmamento, mas a opinião da população foi completamente desconsiderada.

Vamos, então, falar sobre doutrinação e pensamento crítico. Eu estudei quinze anos em escolas e universidades públicas - instituições municipais, estaduais e federais. Não posso dizer todas, porque não me recordo se tive ou não essa experiência entre a primeira e a quarta série na Escola Municipal Princesa Isabel, mas em todas as demais havia um forte incentivo, quando não uma descarada pregação, ao pensamento marxista.

Como eu já disse em tretas passadas, a esquerda pintou essa imagem de cool. Se você é uma pessoa boa, que se importa com os outros, que não gosta de injustiças, então você será de esquerda. Sim, é assim que a coisa é ensinada nas escolas. O capitalismo é do mal, o capitalismo é a causa da pobreza, o capitalismo torna as pessoas infelizes, se você não acredita ou não quer acreditar, essa imagem foi retirada de um livro de história que eu usei na sétima (ou oitava) série:
Era um livro com excelente potencial: organizado, muito didático, linguagem acessível... pena ser tão tendencioso.
Dá pra entender de onde as pessoas tiraram essa ideia de querer uma escola sem partido, né? A tal doutrinação não é fruto da imaginação de ninguém, não é exagero dos coxinhas e não é coisa do passado. Inclusive a esquerda pode deixar o cinismo de lado e assumir que faz isso mesmo e com orgulho, afinal de contas, Gramsci não publicou seus escritos anonimamente, nem usou meias palavras quando idealizou a revolução cultural.

As críticas à Escola Sem Partido podem ser resumidas em: 1) é impossível lecionar sem expressar opinião político-econômica e 2) tirar a ideologia das escolas é desestimular o pensamento crítico.

Não existe discurso neutro

Eu sou advogada e portanto posso dizer que é possível, sim, ensinar, falar sobre e até mesmo defender algo sem concordar. Não vamos entrar nos dilemas morais da questão, mas a impossibilidade em si está completamente descartada. Mas a questão não é essa. Levantar essa crítica é desviar completamente do assunto porque ninguém pediu para você parar de manifestar a sua opinião política.

Confesso que o ideal seria que os professores não manifestassem sua militância em aula, principalmente no ensino fundamental e médio, para alunos que ainda não têm um pensamento crítico completamente formado (vamos chegar lá). Afinal de contas, é possível falar sobre um assunto, ensinar sobre ele, sem defender nem criticar. É educação, não é torcida de futebol.

Mas como? Ora, se criacionistas podem ensinar sobre evolucionismo, por que comunistas não podem ensinar sobre capitalismo? Você não precisa concordar, nem discordar. Prova nenhuma pede "na opinião do seu professor de história da oitava série", e se por acaso pedir, está errado, porque a menos que você seja Rousseau, Marx, Smith, Platão ou um cara desses, ninguém pediu a sua opinião. O que pediram foi pra ensinar pra galera qual é a opinião desses caras. Se você gosta de dar opinião, escreva um livro: compra quem quer.

E o pensamento crítico?

A crítica falha porque iguala pensamento crítico a pensamento marxista. Se não formos marxistas, não saberemos criticar o sistema capitalista vigente. Pensamento crítico não é isso, colegas. Pensamento crítico é saber questionar, criticar, levar à prova todas as crenças, fatos, ideologias, valores, inclusive aqueles que você defende.

Pensamento crítico não se ensina com materialismo histórico. Tudo bem, a dialética de Hegel (utilizada por Marx, mas original de Hegel) pode ser um método. Assim como a maiêutica de Platão. Ou qualquer outro método que estimule o pensamento, a imaginação, a autonomia, que instigue a criança/adolescente a criar suas próprias ideias, mesmo que absurdas, que ensine a criança/adolescente a contestar a si mesma, às ideias, aos professores, ao mundo. 

Precisamos de uma pedagogia em que não seja errado perguntar os porquês, em que não seja falta de educação desafiar o conhecimento estabelecido pelas gerações anteriores. Precisamos de adultos que saibam acolher as críticas infantis e transformá-las em reflexões pessoais. Precisamos de mais auto-avaliação e menos escudos de defesa. Mais pensamento crítico, menos polarização. Precisamos de escolas que não defendam partidos, ideologias ou opiniões, mas sim a liberdade de pensamento, opinião e expressão.

O racismo e os buracos mais embaixo

O retrato do privilégio: nas salas de aula e corpo docente do ensino superior, a presença de negros é minoritária, muito embora sejam a maioria na população. Por outro lado, em funções que exigem menor qualificação, como serviços de limpeza pública, nas estatísticas dos presídios e de mortes violentas por armas de fogo, os negros voltam a aparecer em predominância.


Não há dúvidas de que o racismo está presente e eu, pessoalmente, posso afirmar que ele existe. O racismo (e o machismo também) é muitas vezes a grande causa por trás de muita injustiça, mas não se pode usar essa informação de forma leviana. Vamos fazer um exercício:

Existem poucos professores negros no ensino superior porque as faculdades são racistas.

Será por que as faculdades são racistas? Ou seria porque há poucos candidatos negros? E se for por isso, por que há tão poucos candidatos negros? Não seria um reflexo da ausência de negros nos cursos de mestrado e doutorado? E esta por sua vez não seria porque há poucos negros no ensino superior? 

Quando cavamos esse buraco em cujo final se aloja o racismo, vamos perceber  pelo caminho vários problemas tangíveis e mensuráveis: pouca qualificação para o trabalho, falta de acesso à educação básica de qualidade, a impossibilidade de parar de trabalhar para fazer um curso em período integral, a dificuldade de quem não mora perto de uma universidade. Todos estes problemas têm tamanho definido e solução objetiva. Eles podem ser atacados com ações e estratégias.

Quando a gente chama o problema de RACISMO, deixando de apontar todos os problemas no meio do caminho, ataca uma entidade invisível, psicológica, que inclusive pode ou não estar presente. Mas quando damos aos problemas nomes de coisas concretas com soluções objetivas, nós podemos colocar essas ações e estratégias em execução. Fazendo isso, vamos resolvendo o problema do racismo, que na verdade é um reflexo de uma sociedade desequilibrada, cheia de problemas aos quais as pessoas preferem dar nomes e definições abstratas do que procurar meios concretos para solucionar.

A cultura se perpetua na realidade. Por exemplo, quem acha que negros são pessoas inferiores pode sustentar a sua hipótese pela abundância de negros nas penitenciárias, nas favelas, nas profissões que exigem menor qualificação. É muito mais fácil mudar a realidade dos negros, do que a cabeça dos racistas. Ao mudar a realidade, aquilo que se pode ver, eu retiro o fundamento que sustentava o racismo, enfraquecendo o argumento como um todo. Isso não vai acabar com o racismo no mundo, porque a ignorância do ser humano não tem limites. Mas vai tornar o racismo cada vez mais irrelevante, porque o seu impacto na vida das pessoas será diminuído.

A melhor forma de acabar com uma ideia errada, é retirar o seu fundamento, torná-la sem sentido e irrelevante. Um troll - um racista, um machista, um praticante de bullying - adora ser importante. Ele adora quando as pessoas se preocupam com o que ele pensa. Não digo que devemos permitir que as pessoas falem o que bem entenderem sem serem devidamente responsabilizadas por isso, não. A responsabilidade é a outro lado (fundamental) da moeda da liberdade. O que eu afirmo é que precisamos nos preocupar mais com as pessoas que sofrem e os problemas que podemos resolver diretamente do que com calar a boca de quem fala (e pensa) merda.

Vamos dar menos importância aos trolls e trabalhar para fazer as mudanças que vão mudar a sociedade, vamos?

Como acabar com a cultura do estupro

Num mundo em que uma mulher é estuprada a cada 11 minutos, não há uma mulher que você conheça que não tenha sido assediada. Por que isso acontece tanto? Porque o estupro de uma menina por trinta homens não começa com trinta homens saindo de suas casas decididos a fazer sexo com a mesma menina. Começa com as pequenas atitudes, coisas que, inclusive, são consideradas normais, mas que criam isso que chamamos "cultura do estupro". Porque se algo acontece com a mesma frequência que passa um ônibus na rua, não é mais exceção, é algo que faz parte da cultura, é algo que já está normalizado.


Como adultos, somos responsáveis por fazer adultos melhores para as próximas gerações. Só se muda cultura com uma cultura diferente. Pequenos passos como estes: